O Gacho  Livro Primeiro | Jos de Alencar

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                           O Gacho
                                    Jos de Alencar


                                       Livro Primeiro




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O Gacho

Jos de Alencar




Que significa este nome -- Snio -- no frontispcio de livros que vozes benvolas da
imprensa j atriburam a outrem?

Cada um far a suposio que entender.

Era preciso um apelido ao escritor destas pginas, que se tornou um anacronismo
literrio. Acudiu esse que vale o outro e tem de mais o sainete da novidade.

Porventura escolhendo aquela palavra, quis o esprito indicar que para ele j comeou
a velhice literria, e que estes livros no so mais as flores da primavera, nem os
frutos do outono, porm sim as desfolhas do inverno?

Talvez.

H duas velhices: a do corpo que trazem os anos, e a da alma que deixam as
desiluses.

Aqui, onde a opinio  terra sfara, e o mormao da corrupo vai crestando todos os
estmulos nobres; aqui a alma envelhece depressa. E ainda bem! A solido moral
dessa velhice precoce  um refgio contra a idolatria de Moloch.

10 de novembro de 1870.




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Livro Primeiro
O PEO


I - O PAMPA

Como so melanclicas e solenes, ao pino do sol, as vastas campinas que cingem as
margens do Uruguai e seus afluentes!

A savana se desfralda a perder de vista, ondulando pelas sangas e coxilhas que
figuram as flutuaes das vagas nesse verde oceano. Mais profunda parece aqui a
solido, e mais pavorosa, do que na imensidade dos mares.

 o mesmo ermo, porm selado pela imobilidade, e como que estupefato ante a
majestade do firmamento.

Raro corta o espao, cheio de luz, um pssaro erradio, demandando a sombra, longe
na restinga de mato que borda as orlas de algum arroio. A trecho passa o poldro
bravio, desgarrado do magote; ei- lo que se vai retouando alegremente babujar a
grama do prximo banhado.

No seio das ondas o nauta sente- se isolado;  o tomo envolto numa dobra do infinito.
A mbula imensa tem s duas faces convexas, o mar e o cu. Mas em ambas a cena 
vivaz e palpitante. As ondas se agitam em constante flutuao; tm uma voz,
murmuram. No firmamento as nuvens cambiam a cada instante ao sopro do vento; h
nelas uma fisionomia, um gesto.

A tela ocenica, sempre majestosa e esplndida, ressumbra possante vitalidade. O
mesmo pego, insondvel abismo, exubera de fora criadora; mirades de animais o
povoam, que surgem  flor d'gua.

O pampa ao contrrio  o pasmo, o torpor da natureza.

O viandante perdido na imensa plancie, fica mais que isolado, fica opresso. Em torno
dele faz-se o vcuo: sbita paralisia invade o espao, que pesa sobre o homem como
lvida mortalha.

Lavor de jaspe, embutido na lmina azul do cu,  a nuvem. O cho semelha a vasta
lpida musgosa de extenso pavimento. Por toda a parte a imutabilidade. Nem um bafo
para que essa natureza palpite; nem um rumor que simule o balbuciar do deserto.

Pasmosa inanio da vida no seio de um alvio de luz!

O pampa  a ptria do tufo. A, nas estepes nuas, impera o rei dos ventos. Para a
fria dos elementos inventou o Criador as rijezas cadavricas da natureza. Diante da
vaga impetuosa colocou o rochedo; como leito de furaco estendeu pela terra as
infindas savanas da Amrica e os ardentes areais da frica.




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Arroja- se o furaco pelas vastas plancies; espoja- se nelas como o potro indmito;
convole a terra e o cu em espesso turbilho. Afinal a natureza entra em repouso;
serena a tempestade; queda- se o deserto, como dantes plcido e inaltervel.

 a mesma face impassvel; no h ali sorriso, nem ruga. Passou a borrasca, mas no
ficaram vestgios. A savana permanece como foi ontem, como h de ser amanh, at o
dia em que o verme homem corroer essa crosta secular do deserto.

Ao pr do sol perde o pampa os toques ardentes da luz meridional. As grandes
sombras, que no interceptam montes nem selvas, desdobram- se lentamente pelo
campo fora.  ento que assenta perfeitamente na imensa plancie o nome castelhano.
A savana figura realmente em vasto lenol desfraldado por sobre a terra, e velando a
virgem natureza americana.

Essa fisionomia crepuscular do deserto  suave nos primeiros momentos; mas logo
aps ressumbra to funda tristeza que estringe a alma. Parece que o vasto e imenso
orbe cerra - se e vai minguando a ponto de espremer o corao.

Cada regio da terra tem uma alma sua, raio criador que lhe imprime o cunho da
originalidade. A natureza infiltra em todos os seres que ela gera e nutre aquela seiva
prpria; e forma assim uma famlia na grande sociedade universal.

Quantos seres habitam as estepes americanas, sejam homem, animal ou planta,
inspiram nelas uma alma pampa. Tem grandes virtudes essa alma. A coragem, a
sobriedade, a rapidez so indgenas da savana.

No seio dessa profunda solido, onde no h guarida para defesa, nem sombra para
abrigo,  preciso afrontar o deserto com intrepidez, sofrer as privaes com pacincia,
e suprimir as distncias pela velocidade.

At a rvore solitria que se ergue no meio dos pampas  tipo dessas virtudes. Seu
aspecto tem o que quer que seja de arrojado e destemido; naquele tronco derreado,
naqueles galhos convulsos, na folhagem desgrenhada, h uma atitude atltica. Logo se
conhece que a rvore j lutou  sua nutrio. A rvore  sbria e feita s inclemncias
do sol abrasador. Veio de longe a semente; trouxe-a o tufo nas asas e atirou- a ali,
onde medrou.  uma planta emigrante.

Como a rvore, so a ema, o touro, o corcel, todos os filhos bravios da savana.

Nenhum ente, porm, inspira mais energicamente a alma pampa do que o homem, o
gacho. De cada ser que povoa o deserto, toma ele o melhor; tem a velocidade da
ema ou da cora; os brios do corcel e a veemncia do touro.

O corao, f- lo a natureza franco e descortinado como a vasta coxilha; a paixo que o
agita lembra os mpetos do furaco; o mesmo bramido, a mesma pujana. A esse
turbilho do sentimento era indispensvel uma amplitude de corao, imensa como a
savana.

Tal  o pampa.



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Esta palavra originria da lngua quchua significa simplesmente o plaino; mas sob a
fria expresso do vocbulo est viva e palpitante a idia. Pronunciai o nome, com o
povo que o inventou. No vedes no som cheio da voz, que reboa e se vai propagando
expirar no vago, a imagem fiel da savana a dilatar-se por horizontes infindos? No
ouvis nessa majestosa onomatopia repercutir a surdina profunda e merencria da
vasta solido?

Nas margens do Uruguai, onde a civilizao j babujou a virgindade primitiva dessas
regies, perdeu o pampa seu belo nome americano. O gacho, habitante da savana,
d- lhe o nome de campanha.




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II - O VIAJANTE

Corria o ano de 1832.

Na manh de 29 de setembro um cavaleiro corria a toda brida pela verde campanha
que se estende ao longo da margem esquerda do Jaguaro.

Deixara o pouso pela alvorada e seguia em direo ao nascente. Para abreviar a
jornada, se desviara da estrada, e tomara por meio dos campos, como quem tinha
perfeito conhecimento do lugar.

No o detinham os obstculos que porventura encontrava em sua rota batida, mas no
trilhada. Valados, seu cavalo morzelo os franqueava de um salto, sem hesitar; sangas
e arroios atravessava- os a nado, quando no faziam vau.

Era o cavaleiro moo de 22 anos quando muito, alto, de talhe delgado, mas robusto.
Tinha a face tostada pelo sol e sombreada por um buo negro e j espesso. Cobria- lhe
a fronte larga um chapu desabado de baeta preta. O rosto comprido, o nariz adunco,
os olhos vivos e cintilantes davam  sua fisionomia a expresso brusca e alerta das
aves de altanaria. Essa alma devia ter o arrojo e a velocidade do vo do gavio.

Pelo traje se reconhecia o gacho. O ponche de pano azul forrado de pelcia escarlate
caa- lhe dos ombros. A aba revirada sobre a espdua direita mostrava a cinta onde se
cruzavam a longa faca de ponta e o amolador em forma de lima.

Era cor de laranja o chirip de l enrolado nos quadris, em volta das bragas escuras
que desciam pouco alm do joelho. Trazia botas inteirias de potrilho, rugadas sobre o
peito do p e ornadas com as grossas chilenas de prata.

O morzelo, cavalo grande e fogoso, no tinha bonita estampa. Vinha arreado 
gacha; as rdeas e o fiador mostravam guarnies de prata; eram do mesmo metal
os bocais dos estribos  picaria e o cabo do rebenque de guasca, preso ao punho da
mo direita.

Na anca do animal enrolava- se o lao abotoado  cincha, e do lado oposto os fiis das
bolas retovadas de couro, que descansavam no lombilho de um e outro lado. Pela
perna esquerda do cavaleiro descia a ponta da lana gacha, cuja haste presa  carona
apoiava-se de revs no flanco do animal.

Quem no conhecesse os costumes da provncia do Rio Grande do Sul, suporia que
esse cavaleiro ia naquela desfilada correr alguma rs no campo; ou fazer uma
excurso a qualquer charqueada prxima. Mas as pessoas vaqueanas reconheceriam 
primeira vista um viajante  escoteira.

Com efeito, ao lado do gacho galopavam relinchando trs cavalos, qual deles mais
lindo e garboso; porm nenhum to valente e brioso como o morzelo, que os
distanciava a todos, apesar de montado; e no era animal que precisasse ser advertido
pelo roar das chilenas.




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Estava fresca a manh. Em setembro ainda reina o inverno na campanha; e nesse dia
soprava o minuano, vento glacial, que desce dos Andes. Apesar do sol que dardejava
em um cu lmpido e azul, o frio cortava.

Depois de algum tempo de marcha, avistou o gacho no meio do campo o rancho de
um posteiro, que assim chamam nas estncias os vaqueiros incumbidos de guardar o
gado solto. Encontram -se destas choupanas de distncia em distncia pela extenso
dos grandes pastos.

O viajante botou o animal para o rancho.

Pela porta aberta via- se no interior um homem deitado no cho sobre um pelego, e um
fogo a arder no fundo.

-- Ol, amigo, Deus o salve!

-- Para o servir, respondeu o posteiro virando-se de bruos e levantando a cabea.

-- Sabe-me dizer se o coronel estar em Jaguaro?

-- Homem, deve estar.

-- Ento no sabe com certeza?

-- At anteontem l estava. Mas de um momento para outro pode ser preciso em
outra parte. Ainda mais agora que os castelhanos a andam na fronteira, fazendo das
suas.

Abrindo o ponche, o gacho tirara da guaiaca, espcie de bolsa de couro atada  cinta,
um cigarro de palha e o preparava com a destreza de fumista consumado.

-- Bem; antes da noite saberei, disse tirando lume do fuzil.

Entretanto o peo, erguendo- se do pelego, se aproximara da porta e olhava com
ateno para o viajante.

-- A modo que estou conhecendo ao senhor? acudiu ele.

-- Pode ser, chamo - me Manuel Canho, para o servir.

-- Outro tanto; Francisco da Graa, mas todos me conhecem por Chico Baeta, um seu
criado. Seu nome no me  estranho. Manuel Canho... De Ponche- Verde?

-- Isso mesmo.

-- Bem dizia eu. Agora me alembro; foi em umas corridas no Alegrete, h coisa assim
como dois anos a esta parte. O senhor no esteve l?




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-- Fui um dos que correram.

-- Bem sei; e ganhou aos vencedores. Pois  isso, que eu tinha c na idia. E querem
ver?

Proferindo estas palavras, o Chico Baeta afastou- se do morzelo para melhor examin-
lo.

-- No h dvida. Foi este o moo?

--  verdade!

-- Eh pingo! exclamou o peo, dando com entusiasmo uma palmada na anca do
animal.

S compreender a energia da exclamao do Chico Baeta quem souber que pingo  o
epteto mais terno que o gacho d a seu cavalo. Quando ele diz "meu pingo"  como
se dissesse meu amigo do corao, meu amigo leal e generoso.

-- Que fasca! Sr. Manuel Canho. Enquanto os outros ginetes, e os havia de fama,
levantavam a poama na quadra, c o morzelinho fez trs, zs, e fuzilou na raia como
um corisco.

Canho estava gostando de ouvir o elogio feito a seu animal: o cavalo  uma das fibras
mais sensveis do corao do gacho. Mas alguma coisa instigava o viajante, que
fazendo um esforo interrompeu o peo.

-- Ento se me d licena, vou- me andando. Careo de estar hoje na vila sem falta.

-- O churrasco est na brasa, se  servido?...

-- Obrigado; ficar para outra vez. Antes do descanso ainda tenho que fazer umas
cinco lguas.

-- Pois, amigo, at mais ver.

-- Com o favor de Deus.

-- Olhe; se vir l pela vila a Miss, d- lhe memrias; diga- lhe que em havendo uma
folga, l me tem para bailarmos o tatu.

-- Farei presente, respondeu rindo o Canho que j ia longe  desfilada.

Naquele andar fez o viajante a poro de jornada que tencionava, e aproximou-se do
arroio da Candiota, um dos afluentes do Jaguaro, que atravessa a campanha de norte
a sul, na distncia de algumas lguas da cidade.




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Medindo a altura do sol conheceu que era perto de meio- dia; j a seriema afinava a
garganta para soltar o canto.

Parando  sombra de uma rvore na beira do rio, o gacho saltou no cho, e sacou em
um momento os arreios do animal. Enquanto o morzelo se espojava na grama para
desinteiriar os msculos entorpecidos pelo arrocho da cincha, o viajante batia o fuzil,
e tirava fogo para acender um molho de galhos secos.

A sela  ao mesmo tempo a bagagem do gacho; esse viajante do deserto, como o
sbio da antigidade, pode bem dizer que leva consigo quanto possui.

A xerga lhe serve de cama; a sela forrada com o lombilho, de travesseiro. Nas caronas
traz a maleta com a roupa de muda; na guaiaca pataces ou onas que constituem
todo seu peclio. Entre a xerga e a manta, estende um pedao de carne que o calor do
animal cozinha durante a jornada.

Manuel fez com presteza seus arranjos para a sesta; e deixando a carne a tostar sobre
o fogo, aproximou- se do rio para lavar as mos e o rosto. A janta foi expedita. Uma
grande naca de carne com alguns punhados de farinha; e gua bebida no bocal do
estribo, que o rapaz teve o cuidado de lavar para dar- lhe a serventia de copo.

Atirou- se ento sobre a cama forrada com o pelego; e fumou dois cigarros de palha
enquanto descansava.

-- Hoje em Jaguaro; e daqui a oito dias, Deus sabe aonde! Talvez contigo, pai, l em
cima; murmurou o gacho engolfando os olhos no lmpido azul do cu.

Meia hora no tinha decorrido, que o gacho levantou- se de um salto, e tirou do cu
da boca o som com que a gente do campo costuma falar aos animais. A tropilha que
pastava ali perto, conduzida pelo morzelo, aproximou- se gambeteando.

-- C, Ruo!

Arreado o animal, pulou o gacho na sela e atravessando o rio, partiu a galope.

Seriam cinco horas e meia, quando no azul difano do horizonte se desenhou
iluminada pelo arrebol da tarde a torre da igreja do Esprito Santo, que servia de
matriz  vila de Jaguaro.

Receoso talvez de que o ltimo raio do sol se apagasse, deixando-o ainda em caminho,
o gacho afrouxou as rdeas ao Ruo, que lanou- se como uma flecha.




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III - O AGOURO

Sobre uma pequena ondulao, que cingem de um e outro lado dois pequenos
crregos, est assentada a cidade, ent o vila de Jaguaro,  margem esquerda do rio
do mesmo nome.

Naquela tarde do dia 29 de setembro de 1832, havia no povoado uma agitao, que
indicava algum fato extraordinrio. Os habitantes em turmas enchiam as ruas, e
especialmente a das Palmas, que fica fronteira ao quartel.

A razo desse ajuntamento, e do alvoroto que se percebia entre o povo, podia
conhec-la quem se desse ao trabalho de escutar as falas daqueles bandos de
curiosos.

-- Foram batidos?

-- Completamente. Rivera caiu sobre eles que foi uma lstima.

-- E Bento Gonalves os prendeu?

-- No vai desarm - los?

-- Ande l, acudiu um tropeiro, que o Lavalleja  um duro. H de tirar a desforra.

Com efeito, Juan Lavalleja, o heri da independncia de Montevidu, sua ptria, tendo-
se revoltado contra o Presidente da Repblica, Frutuoso Rivera, fora afinal derrotado
pelas foras legais e obrigado a passar a fronteira.

Pisando territrio brasileiro foi o caudilho intimado pelo coronel Bento Gonalves,
comandante da fronteira do Jaguaro, para entregar as armas, ao que submeteu- se
sem resistncia.

Fronteiro ao quartel, e em face da nossa tropa, formou a fora rebelde. Os soldados
com o semblante carregado esperavam o momento solene de depor as armas. O
sentimento dessa humilhao era partilhado por grande parte da populao, imbuda
de certo esprito militar.

Lavalleja dirigiu a seus companheiros de infortnio palavras de animao, que
produziram efeito contrrio. A clera concentrada prorrompeu em queixas amargas e
violentas recriminaes.

Afinal consumou- se o ato. Os soldados deixaram as armas em terra, e foram
recolhidos presos ao quartel. D. Juan Lavalleja entregou a espada ao coronel Bento
Gonalves, que o hospedou em sua casa, enquanto no lhe dava destino.




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Dispersava- se o povo, comovido pela triste cerimnia, quando o galope do cavalo de
Manuel Canho ressoou no princpio da Rua das Trincheiras.

O gacho apeou  porta de uma venda que dava pousada. Depois de recolher seus
animais ao potreiro, e guardar os arreios no canto que lhe destinaram, sentou- se no
alpendre e pediu uma cuia de mate.

J sabia o que desejava. O coronel estava na vila; logo mais, quando ele tivesse dado
as providncias sobre o destino da gente desarmada, iria o rapaz procur- lo.

No alpendre estava diversas pessoas conversando sobre o acontecimento do dia:

-- Se  verdade o que dizem, observou um seleiro com ar de mistrio, o coronel no
desarmou o homem l muito pelo seu gosto.

-- Ora esta do Lucas Fernandes! Se ele no quisesse, quem o obrigava? No  assim?

-- Decerto!

-- Ainda no  tempo.

-- De qu? perguntou um ferrador.

-- Olhem; desta ningum me tira. O coronel antes queria ter filado o Frutuoso, do que
o Lavalleja!

-- Mas por qu, Flix?

-- Vocs vero.

O coronel Bento Gonalves da Silva, veterano da guerra da Cisplatina e comandante da
fronteira de Jaguaro e Bag, era ento o homem mais respeitado em toda a
campanha do Rio Grande do Sul. Franco e generoso, bravo como as armas, vazado na
mesma tmpera de Osrio e Andrade Neves, montando a cavalo como o Cid
campeador, era Bento Gonalves o dolo da campanha.

Os homens o adoravam; as mulheres o admiravam. O mais sacudido rapaz achava
coisa muito natural que as moas bonitas chegassem  janela para ver passar o
elegante velho, com seu talhe alto e espigado, e seu peito amplo e bombeado como a
petrina do brioso ginete.

Sensvel a essa fineza do belo sexo, o veterano alisava o bigode grisalho, pagando com
um sorriso os olhares coados pelas rtulas. Ao mesmo tempo consolava os rapazes,
fazendo-lhes um aceno com a mo, ou dirigindo- lhes algum dito picaresco.

Da influncia que exercia Bento Gonalves sobre o nimo da populao, pode bem dar
uma idia o que dizia h pouco um dos camaradas reunidos no alpendre da pousada:
"Se ele no quisesse, quem o obrigava?" Estas palavras traduziam a convico daquela



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gente. Para os habitantes do interior, o coronel era o rei da campanha; ningum tinha
o direito de lhe dar ordens; desarmara Juan Lavalleja porque assim lhe aprouvera,
como poderia proteg-lo, unir- se a ele, e marchar sobre Frutuoso Rivera.

Havia ento no Rio Grande do Sul outros coronis, e entre eles o veterano Bento
Ribeiro, que devia figurar posteriormente na histria de sua provncia de uma maneira
to triste, apagando as pginas brilhantes que sua espada leal tinha escrito em mais
de um campo de batalha.

Mas o coronel por excelncia, aquele em quem o povo havia personificado o ttulo,
como o mais bravo e digno, era Bento Gonalves. De uma  outra fronteira da
provncia, os estancieiros muitas vezes no sabiam ou no se lembravam quem era o
presidente e o comandante das armas; mas qualquer peo ouvindo falar no coronel,
sabia de quem se tratava; e no se metessem a tasquinhar nele, que a faca de ponta
saltava logo da bainha.

Continuava a prtica entre os fregueses da venda:

-- C por mim, se eu fosse o coronel, o que fazia era passar uma coleira vermelha ao
pescoo do Lavalleja.

Estas palavras eram de um carneador. Coleira chamava ele no seu estilo pitoresco ao
degolo que todas as manhs fazia nas reses destinadas ao corte da charqueada.

-- Ora, que mal fez o homem?

-- J se esqueceu do levante de Montevidu?

-- No vejo crime em libertar um homem sua ptria, acudiu o Lucas Fernandes. Fez
ele muito bem, e ns c no estamos muito longe de seguir o mesmo caminho. As
coisas vo mal; o governo do Rio no d importncia aos homens da provncia. J no
demitiram o coronel porque tm medo.

-- L isso  verdade! Atrevam- se que ho de ver o bonito.

-- No  por falta de vontade dos de Montevidu que no cessam de pedir.

-- Pudera! Se no fosse o coronel, entravam eles por esta fronteira como por sua casa.

Eram os prdromos da revoluo que devia prorromper trs anos depois. A semente a
estava lanada na populao, e se desenvolvia com o vento sedicioso que soprava do
Prata.

Uma voz infantil soara na rua perguntando:

-- Papai est a?

Lucas Fernandes voltou- se para a menina que subia os degraus do alpendre.



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-- Que queres, Catita?

-- J se foi a tropa, papai?

-- Pois no viste?

-- Ora! cuidei que iam brigar!

-- Olhem a pequena! exclamou o ferrador a rir. Ento voc queria ver-nos brigar com
os castelhanos?

-- Queria; h de ser bonito!

-- Assim, gauchinha! acudiu um tropeiro repuxando o bigode.

-- Ainda hs de ter esse divertimento, Catita, redargiu o Lucas Fernandes. To
depressa achasses tu um bom marido.

-- Pois no h de achar? To guapa mooila! Aqui estou eu que se ela no refugar...
Hein! Catita, que diz? H de ser minha noiva.

-- Quem conta com soldado? O noivo dela  c o degas, que j nos ajustamos! Tornou
o tropeiro piscando o olho.

Sorria no entanto a menina com certo arzin ho de malcia que frisava o boto de rosa
da boquinha a mais gentil. Ao mesmo tempo movendo lentamente a fronte em sinal de
recusa, meneava as duas longas tranas de cabelos negros, que, ondeando pelas
espduas, desciam at  bainha da saia curta de lila encarnada com vivos pretos.

Era realmente um feitio a Catita. Seu talhe de treze anos, esbelto e airoso, no tinha
as formas da donzela, mas j no requebro faceiro ressumbrava a graa feminina. Os
olhos negros, como os cabelos, ela os trazia sempre a meio vendados pelas rseas
plpebras; por isso, quando alguma vez se desvendavam, parecia que seu rosto se
tinha banhado em jorros de luz.

A tez, quem a visse, em repouso, sob a negra madeixa, cuidaria ser alva; mas nas
inflexes do colo e dos braos percebia- se, como sob a transparncia da opala, uns
reflexos de ouro fusco. Ento conhecia - se que era morena; e o tom clido de sua ctis
lembrava o aspecto das brancas praias de areia, iluminadas pelos ltimos raios do sol.

-- Esto a perdendo seu tempo. Ela j me deu sua palavra. No , moa?

-- Sai- te, gabola, que o dunga est aqui, disse um peo plantando- se no meio da casa
com a mo esquerda no quadril, e a direita no ar brandindo a faca.

-- Est bem, no vai a brigar, acudiu Lucas Fernandes rindo. Qual deles escolhes,
Catita?




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O Gacho  Livro Primeiro | Jos de Alencar

                                                                            Pg. 14 de 56


-- Eu, papai?

-- Pois ento?

-- Eu... disse a menina esticando a perna bem torneada, e arqueando o pezinho
calado com um sapato de marroquim azul.

Suspensa um momento nessa figura de dana, enquanto percorria com olhar brejeiro
os sujeitos da roda, acabou a frase descrevendo uma pirueta graciosa.

-- Eu no escolho nenhum!

-- Ora a est! disse o Lucas soltando uma gargalhada.

-- Qual! J est fazendo melrias.

-- Meu noivo... Querem saber qual ?

-- Ento sempre escolhe!

-- Ai que j estou me lambendo!

-- Quem ?

-- Olhe!

No canto oposto do alpendre, estava o Manuel Canho, sentado no parapeito, com o
cigarro na boca, e a vista divagando pelos campos que se estendiam alm do crrego,
s abas da cidade. Inteiramente alheio ao que passava junto, o gacho parecia de todo
absorvido em suas cogitaes.

Esta expresso de recolho ntimo apagava certa aspereza de sua fisionomia. Visto
assim de perfil, com a fronte descoberta, os cabelos que a brisa agitava, e o talhe
desenhado pelo traje pitoresco do gacho, era sem dvida um bonito rapaz.

Foi a ele que se dirigiu Catita; e tocando- lhe no ombro, voltada para os outros, disse:

-- Este!

-- No vale! exclamou o peo.

Sentindo no ombro a mo da menina, o gacho voltou- se com um olhar interrogador.

--  voc que eu quero para meu noivo, disse-lhe Catita a sorrir.

-- Quando for viva, ento sim, serei seu noivo! respondeu o gacho em amargo tom
de ironia.




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Afastou-se a menina com um espanto misturado de pesar. Da gente da roda, uns no
viram no dito do gacho mais do que uma chufa, e riram; outros no lhe deram
ateno.

Catita, porm, tomou aquela estranha resposta de Canho como agouro; e teve nessa
noite um sonho bem triste.




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                                                                        Pg. 16 de 56


IV - O PADRINHO

Soavam trindades na torre da matriz.

Manuel Canho ergueu- se e esperou de cabea descoberta pela ltima badalada; depois
do que, saiu na volta da Rua das Palmas onde morava o coronel.

Estavam  porta o cabo de ordens e uma rcua de camaradas paisanos ao servio do
coronel. No havia ento na campanha do sul homem ou estancieiro importante que
no se acompanhasse de um bando de gachos. O nmero desses camaradas, que
lembram os acostados da Idade Mdia, indicava o grau de preponderncia e riqueza do
patro.

Voltara Bento Gonalves do quartel, e enquanto serviam a ceia, foi ter na sala com seu
prisioneiro, D. Juan Lavalleja.

O caudilho dava sinais bem visveis de mau- humor, no cenho carrancudo e na
impacincia com que trincava a ponta do cigarro de palha. Por momentos arrependia-
se do que tinha feito, e lamentava no ter morrido combatendo contra Frutuoso Rivera
ou Bento Gonalves, antes do que sujeitar- se  humilhao de render as armas. E a
quem? A brasileiros.

No obstante, no meio desta apoquentao, l surdia no nimo do ambicioso caudilho
uma idia, que ele ruminava com a mesma pertincia do dente a morder a palha do
cigarro.

Com a entrada de Bento Gonalves, a sofreguido de Lavalleja aumentou.
Correspondendo apenas com um gesto seco  saudao do hspede, ergueu- se e
comeou a percorrer a varanda de uma a outra ponta, em passo de carga. Pelo que
lembrou-se o coronel de assobiar o toque de avanar a marche e marche.

Ou porque o gracejo do hspede o excitasse, ou porque era chegado o momento da
exploso, Lavalleja veio como uma bomba parar em face do coronel, e exclamou com
uma voz taurina, atirando aos ares um murro furioso:

-- Coronel, o senhor no  um homem!

Como aquela palavra abalou Bento Gonalves, que achou- se em p de repente,
afrontando em face o oriental! Mas no passou de um primeiro assomo; a alta estatura
que a indignao erigira perdeu a rijeza ameaadora; no rosto anuviado perpassou o
sorriso plcido e sereno das grandes almas, que uma clera pequena no conturba.
So essas almas como o grande oceano; qualquer borrasca no o agita; para
subvert- lo  preciso o tufo dos Andes.

-- O senhor  meu prisioneiro e hspede desta casa, general, disse Bento Gonalves
sentando- se com a maior calma. Em outro momento e outro lugar, eu lhe mostraria
que um brasileiro no vale um, mas dez homens; enquanto que so precisos dois
castelhanos para fazer meio brasileiro. O senhor deve saber disto.




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-- Outro tanto lhe podia eu retorquir; mas no estou agora para bravatas. Digo e
repito que no  um homem, Sr. Bento Gonalves, pois se o fosse, seria o primeiro de
todo este Rio Grande. Em vez de coronel se faria general. Que vale o comando desta
fronteira para quem pode, estendendo a mo, apanhar a presidncia da provncia?

-- Que pretende dizer com isto, general?

-- Caramba! No momento em que Bento Gonalves quiser, o Rio Grande do Sul ser
um Estado independente como a Banda Oriental. Est bem claro agora? Para arrancar
minha ptria ao jugo do imprio bastaram trinta e trs heris; bem sei que um deles
era D. Juan Lavalleja. O senhor que tem por si toda a campanha, deixa- se aqui ficar
bem repousado, a chupitar seu mate como uma velha; e pica- se porque lhe digo que
no  um homem. Mas decerto que no o . Minha mulher, D. Ana Monteroso, teria
vergonha de praticar semelhante fraqueza; ainda que  mulher de quem , todavia...

-- De que lhe serviu ao senhor, diga- me, fazer a diviso da Cisplatina? retorquiu o
coronel com ironia. L est seu compadre, dentro do queijo; e eu obrigado bem contra
minha vontade a desarmar o heri da independncia de sua ptria, como um rebelde.

-- L isso no vem ao caso;  a sorte da guerra. Hoje ganhou meu compadre a
partida, amanh chegar a minha vez; todavia, c entre ns, quem manda  o mais
forte; no somos governados por um menino de sete anos.

-- Quem governa  a lei, respondeu Bento Gonalves em tom seco.

-- Burla, coronel; este mundo  governado por duas coisas: a fora ou a astcia. O
mais, isso de lei, de liberdade e justia, so palavras sonoras para o povo, que no fim
de contas no passa de um menino a quem se acalenta com um chocalho... O Rio
Grande lhe pertence, coronel, como a Banda Oriental a mim, D. Juan Lavalleja.

-- Vamos cear, general.

-- Ento deixa passar a ocasio?

-- Sou brasileiro; nasci cidado do imprio; e assim hei de viver, enquanto houver
liberdade em meu pas, porque para mim a liberdade no  uma burla para enganar o
povo, mas o primeiro bem, que no se perde sem desonra, e no se tira sem traio.
Quando eu me convencer que para ser livre,  preciso deixar de ser imperialista, no
careo que ningum me lembre o que me cabe fazer. O coronel Bento Gonalves
saber cumprir seu dever.

Dando esta resposta com tom enrgico, o rio- grandense guiou o caudilho  varanda
onde tinham posto a ceia.

Em uma das extremidades da longa mesa, estavam colocados dois pratos com talheres
de prata destinados ao dono da casa e seu hspede. Diante deles fumegava um grande
assado de couro, e um peixe que enchia a imensa frigideira de barro. Havia alm disso
ervas e legumes.




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                                                                        Pg. 18 de 56


J estavam na varanda os gachos da comitiva do coronel, os quais lhe deram as
boas- noites. O Canho adiantou- se para beijar a mo de Bento Gonalves que era seu
padrinho.

-- Oh! Ests por c, Manuel?

-- Cheguei esta tarde.

-- Como vai a comadre?

-- Boa, graas a Deus.

-- Ests um rapago! Abanca-te; vamos cear.

O coronel tomou lugar  cabeceira, dando a direita ao hspede. Na outra ponta da
mesa sentaram- se os camaradas e Manuel, em bancos de madeira; cada um tirou um
prato da pilha que havia no centro e colocou- o diante de si.

Depois de servido o dono da casa e o hspede, os pratos eram levados pelo escravo
copeira para a outra extremidade, onde os gachos iam tirando seu quinho com a
faca de ponta que traziam  cinta.

-- Vamos ao peixe, general, disse Bento Gonalves servindo a Lavalleja. Ento,
Manuel, andas de vadiao ou isto  volta de negcio?

-- Nem uma, nem outra coisa. Vim s para falar a meu padrinho.

-- Pois fala, rapaz; no percas tempo.

--  sobre um particular.

-- Est bem; ento logo mais.

Terminada a ceia, enquanto os outros tomavam mate e fumavam, o coronel fez ao
gacho um gesto para que este o acompanhasse  sala.

-- Que particular  esse? Alguma gauchada, aposto?

-- Vim pedir a bno de meu padrinho, para me dar felicidade, e mesmo porque
talvez l me fique!

-- E para onde te botas?

-- Para Entre- Rios.

-- Buscar o qu?

-- O homem que matou meu pai!



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-- Hein!... Depois de tanto tempo?

-- So coisas que no esquecem nunca.

-- No esquecem, bem sei; mas se perdoam; talvez o sujeito esteja arrependido.

-- Melhor; Deus o absolver.

-- Visto isto, ests decidido?

-- Desde muito tempo. H cinco anos a esta parte que descobri o homem l em Entre -
Rios, e ento pela festa vou sempre para aquelas bandas, ver se ainda l est.

-- Estiveste invernando- o antes de charque- lo? replicou o coronel a rir.

-- Sabe Deus quanto me custou deix- lo sossegado todo este tempo. Mas eu precisava
trabalhar primeiro, para que a me ficasse com alguma coisa. Tudo pode acontecer; e
afora eu, no tem ela quem a ajude.

-- E Bento Gonalves no est aqui, rapaz?

-- Meu padrinho tem muitos por quem olhar; no pode chegar para todos. Se eu no
voltar, sempre ficar com que acender o fogo.

-- Que diz tua me a tudo isto?

-- Ela no sabe.

Bento Gonalves deu duas voltas pela sala.

-- Escuta, Manuel. Teu corao te pede o que vais fazer? Sentes que sem isso no
poders viver descansado? Fala verdade.

-- Se eu no vingasse o pai, ele me renegaria l do cu e no quereria para filho um
poltro ingrato.

-- Com a breca! Meu ofcio no  de padre! exclamou impetuosamente o coronel. Vai,
rapaz; segue teu impulso. Tenho f em que hs de honrar as barbas de teu padrinho;
se chegar tua hora, o que no h de suceder, descansa em paz, que eu velarei sobre
tua me.

-- Obrigado, meu padrinho; bote- me sua bno.

-- Deus te abenoe e te acompanhe, Manuel.

Beijou o gacho a mo vigorosa do coronel, que ria- se estrepitosamente para disfarar
a comoo.




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                                                                        Pg. 20 de 56


Quando Manuel recolhia- se  pousada, ouviu uns rufos de guitarra coados pelas frestas
esclarecidas de uma rtula da vizinhana. Ao som do acompanhamento arrastado, uma
voz maviosa, de timbre infantil, dizia com terna expresso uma cantiga brasileira. O
gacho apesar de preocupado pde ouvir as seguintes coplas:

A minha branca pombinha.
Com tanto amor a criei;
Depois de bem criadinha,
Fugiu- me; por que, no sei.

Quis beijar o seio dela,
Bateu as asas, voou;
A minha pombinha bela,
Foi gavio que a levou.

-- Bravo, Catita! exclamou a voz do Lucas Fernandes.




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V - O PREO

Dias depois, j em outubro, na sala de uma pousada da provncia de Entre-Rios,
estavam reunidos vrios andantes, invernistas e tambm alguns capatazes da
vizinhana.

Ente outros pousara ali um chileno que vinha de Mendoza ou Crdova, e contava
atravessar toda a campanha at o Rio Grande do Sul. Espcie de mercador ambulante,
misto de mascate e de aventureiro, costumava ele percorrer as cidades e povoaes
do interior  cata do bom negcio, como da boa- vida.

Trazia duas ou trs mulas carregadas com uma partida de fazendas de l e seda,
porm especialmente de chapus- do-chile, palas de vicunha, e guarnies de prata
para arreios de montaria. De caminho ia chatinando a sua mercadoria, e comprando
animais, que mais adiante negociava, se lhe ofereciam bom lucro.

Quando tinha a bolsa recheada, e achava encanto no lugar, deixava- se ficar uns oito
ou quinze dias, quantos bastavam para concluir alguma aventura amorosa, ou para
tirar a sua desforra dos parceiros que no jogo da primeira lhe haviam limpado as
onas.

Ao cabo de uma ou duas semanas, partia-se uma bela manh, mais ligeiro da bolsa,
porm, contente de si, e prazenteiro sempre; levava a alma cheia da plena confiana
que adquire o homem errante, habituado  boa e  m fortuna, afeito ao sol e 
chuva.

Neste circuito, muitas vezes consumia o nosso chileno dois ou trs anos.
Freqentemente chegava at Sorocaba, onde a grande feira de animais costuma reunir
em maio grande nmero de marchantes de diversas paragens. Estes concursos tm
grande encanto para o viajante que pode assim reviver as recordaes de cada terra
por onde passou. Alm disso, na mesa do jogo e nas apostas, corre o ouro a rodo:
fazem- se preos fabulosos que afrontam os mais destemidos.

Estas coisas, o mascate gostava de ver para cont-las mais tarde nalgum ponto
remoto, onde ele pudesse figurar como heri da histria, no meio de alguma roda de
bonitas muchachas.

Vendidas todas as fazendas, e apuradas as barganhas feitas pelo caminho, voltava o
chileno a prover- se de uma nova carregao para continuar a vida nmade a que se
habituara desde a infncia. Essa locomoo constante era um elemento de sua
existncia; seu esprito superficial saciava- se logo das impresses de qualquer lugar, e
carecia de uma diverso.

As pessoas, reunidas na varanda, pitavam o infalvel cigarrito de palha, sorvendo a
goles o mate chimarro. A conversa, frouxa em comeo, veio a cair sobre a gineta,
que  juntamente com as histrias de briga e namoro o tema favorita da conversa dos
gachos na campanha.




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-- Pois, senhores,  o que digo, exclamou o chileno. Nenhum ser capaz de montar a
gua que trago a.

-- Talvez seja ela to chiquita, D. Romero, que um homem no a possa montar, e
somente um gambirra, acudiu com ar sardnico um dos camaradas.

Os outros aplaudiram.

-- Uma coisa  rir, amigos, e outra fazer, redargiu o chileno.

-- Pois sem dvida que se h de montar, D. Romero, disse um invernista de So Paulo.

-- Quer experimentar?

-- Mande o senhor puxar a sujeitinha c para o terreiro! disse erguendo- se um
paraguaio.

D. Romero dirigiu-se ao dono da pousada:

-- Faz favor, amigo, para satisfazer aos senhores.

Enquanto se foi buscar o animal que estava preso  soga no pastinho, contou D.
Romero, como em caminho o apanhara de surpresa perto de um desfiladeiro, h trs
dias passados. Desde ento fizeram ele e os dois camaradas que trazia, os maiores
esforos para mont- lo; mas desistiram.

-- Ainda no encontrei quem se atrevesse! concluiu o chileno.

Um sorriso incrdulo, no qual se embebia sofrvel dose de arrogncia e motejo,
circulou pelos campeiros.

-- Porventura os senhores duvidam? perguntou D. Romero assombrando- se.

-- No se duvida do conto, mas do animal, que seja como quer o amigo; e se no
veremos.

-- O senhor vem l da terra onde se monta em carneiros ou lhamas, como lhes
chamam, disse outro companheiro.

-- Com licena, tenho visto os melhores ginetes e tambm entendo do riscado.

-- Topa o senhor alguma coisa?

-- Tudo, amigo. To guapa estampa de animal, no quero que haja em toda esta
campanha at Chuquisada. Em Buenos Aires, Montevidu, ou Porto Alegre. O ponto 
apresent- la que logo me chovero as onas. Pois, senhores, se algum dos presentes
for capaz de mont- la, a gua  sua.




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-- Valeu! exclamou o paraguaio estendendo a mo ao chileno.

-- Palavra de D. Romero.

-- Bravo! exclamaram em coro. Venha a rapariga.

-- Ei- la a! disse o dono da pousada, apontando.

Ao lado da casa, junto  mangueira, aparecera com efeito o animal, trazido por um
rapazinho que servia de peo. No tiveram, porm, os companheiros tempo de
examinar a gua; porque instantaneamente achou-se ela no ptio diante do alpendre.
Com dois corcovos unicamente devorara a distncia de muitas braas, que a separava
da casa.

Se no fosse to ligeiro, o rapazinho no escaparia da fria com que a gua se arrojara
para mord- lo; felizmente conseguiu ele alcanar o moiro, onde passou a laada do
cabresto, pondo- se fora de alcance.

Na presena da gente que a cercava, a gua estacou, raspando o cho com a pata
arminada de branco. Pde- se ento admirar- lhe a perfeio da estampa. Desta vez,
contra o costume, no havia exagerao da parte do chileno; era com efeito um
soberbo animal.

Talhe esbelto e fino sobre alta estatura; cabea pequena, colo cintado e garboso, pelo
qual se encrespavam as longas crinas, esparsas como os anis de basta madeixa; a
anca rolia, ligeiramente bombeada e ondulando com os reflexos ardentes do luzido
plo; os ilhais a se retrarem com um espasmo nervos; e finalmente uma roupagem
baia, que nos cambiantes luminosos parecia veludo tecido a fio de ouro; tal era a
imagem viva e palpitante que os gachos tinham diante dos olhos.

Animada por um assomo de clera, essa beleza eqina desenhava na imaginao
daqueles homens os contornos voluptuosos de alguma gentil morena da redondeza,
quando sucedia irrit- la uma palavra ou gesto de seu namorado. Ao mesmo tempo
despertavam no nimo de cada um os brios do picador, embora o fero olhar que
desferiam as grandes pupilas negras da gua, sofreasse os mpetos dos mais
destemidos.

De momento a momento, aspirava o indmito animal uma golfada do vento agreste
dos pampas. Escapava- lhe ento do peito um nitrido plangente e merencrio, que
enternecia, como o soluo da selvagem me implorando o filho perdido.

Passando o primeiro movimento de curiosidade, e feitos na linguagem pitoresca a
                                                 -
campanha os elogios do lindo animal, aproximaram se todos, fechando o crculo em
torno do moiro.

Nesse instante ergueu-se do alpendre, onde estivera deitado sobre o pelego, um
gacho, que veio recostar- se ao parapeito. Ningum ali o conhecia, a no ser o dono
da pousada, com quem trocou algumas palavras.




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O desconhecido chegara durante a noite e vinha de longe, ao que parecia. Estava
descansando da jornada, quando o borborinho das vozes, e as risadas que soltavam os
andantes, o despertaram. Excitado da curiosidade, ps- se a contemplar a cena do
terreiro, que ele via perfeitamente daquela posio elevada.

Fora longa e renhida a luta dos pees com o animal, antes que lhe deitassem a mo.
Em se adiantando algum mais afoito, a gua juntava e de um salto espantoso se
arremessava longe, disparando aos ares o coice terrvel, e encrespando o pescoo para
morder.

Conheceram afinal que era impossvel levar sua avante pelos meios ordinrios. Foi
ento laado o animal pela garupa em um dos corcovos, e jungido ou antes, enrolado
ao moiro. Preso assim da cabea e dos quadris, ficou tolhido de todo o movimento;
mas um tremor convulso percorria- lhe o corpo, e a polpa da narina trepidava com as
baforadas do hlito ardente, que se coalhavam na fria temperatura da manh como
frocos de fumaa.

Em um pice estava a gua arreada. Eram a cincha, o peitoral e as rdeas, feitos de
couro cru, que l chamam guasca, e depois de seco resiste ao ao.

-- Quem vai, gente? perguntou um da roda.

Ningum respondeu.

-- Esfriou- lhes a gana! Exclamou o chileno com riso motejador.

-- Eu c estava  espera dos senhores para no dizerem que lhes tomava a mo, disse
afinal o paraguaio. Visto ningum querer, vamos ns bailar, rapariga.

-- Nada, o amigo que primeiro apostou, deve ter a dianteira. No , senhores?

-- Pois decerto.

-- Ento, perguntou o paraguaio dirigindo- se ao chileno: o animal  de quem montar.
Est dito?

-- E escrito.

-- No h mais arrepender?

-- Palavra de um guasca. Arrebenta, mas no arrepende.

-- Bravo! exclamaram em roda.

Para ter jeito de montar, afrouxou o paraguaio o lao que prendia os quartos do animal
ao tronco; e ajustando as rdeas, ps o p na soleira do estribo.




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Imediatamente aos olhos dos campeiros atnitos passou uma coisa subitnea, confusa
e estrepitosa; uma espcie de turbilho para o qual s h um termo prprio.

Foi uma erupo.

Abolara-se a gua, como a serpente quando se enrosca para arremessar o bote.
Retraiu- se o flanco sobre os quadris agachados, enquanto a tbua do pescoo arqueou
dobrando a cabea ao peito intumescido. De sbito, esse corpo que se fizera bomba,
estourou. Espedaados, voaram os arreios pelos ares e o paraguaio, arremessado
pelos cascos do animal, rolava no cho.

-- Irra! gritou o invernista.

                                -
Viram os campeiros desenvolver se daquele turbilho de p uma forma elegante e
nervosa que relanceou por diante deles estupefatos. A gua desaparecera; mas ouvia-
se ainda o estrpito cadente do rpido galope.




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VI - A BAIA

Calmo na aparncia, mas abalado no nimo, assistira o brasileiro  cena anterior,
encostado  pilastra do alpendre.

-- Que eguazinha, hein, Manuel Canho? disse o dono da pousada aproximando- se.

Respondeu o rio- grandense com um sorriso, levantando os ombros desdenhosamente.

-- No sabem lev- la.

Chegava no entanto o chileno, muito contente de si, a galhofar com a roda dos
companheiros, entre os quais vinha derreado e coberto de poeira o gabola do
paraguaio.

Manuel caminhou direito a D. Romero.

-- Tenho dez moedas nesta guaiaca, disse ele erguendo a aba do ponche, quer o
senhor receb- las pela gua?

-- Por dinheiro algum a vendo; mas se tanto a cobia o amigo, por que no a leva de
graa? Basta mont- la, retorquiu o chileno com ironia.

-- Ento sustenta a aposta?

-- Est entendido.

-- Mande tocar o animal, Perez, disse o brasileiro voltando- se para o dono da locanda.

Os outros olharam surpresos para Manuel Canho; embora no conhecessem qual a
habilidade do brasileiro na gineta, era tal a faanha, que todos  uma duvidaram do
bom resultado. Pasmos com o arrojo do gacho, e ainda mais com a confiana e
singeleza de seu modo, se preparavam para assistir a segundo trambolho, e rir 
custa do rio- grandense, como tinham rido  custa do paraguaio.

Posto cerco ao animal, os pees conseguiram depois de alguns esforos, toc- lo para o
gramado.

-- Basta, disse Manuel, agora deixem a moa comigo.

Tinha a baia parado a alguma distncia e vibrava o olhar cintilante sobre a gente
reunida ento perto do alpendre. Suspensa na ponta dos rijos cascos, longos e
delgados, de cabea levantada, cruzando a ponta das orelhas finas e canutadas, com o
plo erriado e a cauda opulenta a espasmar- se pelos rins, parecia o animal prestes a
desferir a corrida veloz.

O Canho adiantou-se alguns passos, cravando o olhar na pupila brilhante da baia, ao
passo que soltava dos lbios um murmurejo semelhante ao rincho dbil do poldrinho



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O Gacho  Livro Primeiro | Jos de Alencar

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recm- nascido, quando busca a teta materna. No semblante rude e enrgico do moo
gacho se derramava um eflvio de ternura.

Ao doce murmurejo, as orelhas do animal titilaram com ligeiro estremecimento,
enroscando- se como uma concha, para colher algum som remoto, esparso no ar. Fita
no semblante de Manuel a vista ardente e sfrega, dir- se- ia que a inteligente gua
interrogava o pensamento do homem e queria compreend- lo.

 medida que ela inalava o fluido magntico do olhar do gacho, uma expresso meiga
e terna se refletia na pupila negra. Serenava a braveza e clera acesas na prxima
luta. O plo riado ia- se aveludando, as ranilhas de suspensas pousavam sobre a
relva, enquanto os flancos clssicos, alongando- se, perdiam a toro dos msculos,
retrados para o salto.

Lentamente, a passo e passo, aproximou-se o gacho, at que pde estender- lhe a
mo sobre a espdua. A gua arisca arrufou- se de novo. Rpido foi o assomo; outra
vez soara a seu ouvido, mais terno e plangente, o dbil ornejo, ao tempo que a mo,
instrumento e condutor d'alma humana, alisava- lhe a anca e a selada com um doce
afago.

Estava o generoso bruto aplacado e calmo, mas ainda no rendido. Cingiu-lhe Manuel
o colo garboso com abrao de amigo, e encostou- lhe na cabea a face. Os olhos de
ambos se embeberam uns nos outros e se condensaram em um mesmo raio, que flua
e reflua da pupila humana  pupila eqina.

                                 a
Que palavras misteriosas balbuci vam os lbios do gacho ao ouvido do indmito
animal, com a mo a titilar-lhe os seios, e os olhos a se engolfarem no horizonte
lmpido por onde se dilatavam os pampas?

O bruto entendia o homem. Quando Manuel aspirou as baforadas da fria rajada que
vinha do deserto, a gua espreguiou o lombo, recurvando o pescoo para estreitar o
gacho; e um relincho de alegria arregaou- lhe o beio.

Em profundo silncio assistiam os companheiros ao colquio do bruto com o homem.
Essa luta da razo com a fora  sempre eloqente e admirvel; a patenteia- se o
homem, rei da criao: o triunfo no pertence unicamente ao indivduo, mas  espcie.

Vendo Manuel, depois de repetidos afagos, passar a ponta do cabresto pelo pescoo do
animal, os campeiros tomaram flego. Seus olhares se cruzaram, transmitindo uns a
outros a expresso da prpria surpresa, e buscando o sinal da alheia. O pensamento,
que assim flutuava nesses olhares, reproduzia-se a trechos em exclamaes breves e
entrecortadas:

-- Ento?

--  verdade?

-- Quem diria?




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-- Monta?

-- Ele, parece...

-- Tambm creio.

-- Nunca pensei.

--  de pasmar.

-- S mandinga!

Atento aos gestos de Manuel, o chileno no tirava os olhos do ponto. Ouvindo os ditos
dos companheiros, retorquiu com despeito:

-- At montar, ainda h que ver.

Com efeit o a baia recusava entregar o focinho ao cabresto. Encrespando de novo o
plo, empinou- se para soltar o galo, e arremeter pelo pasto. J as patas repeliam o
cho, e o talhe da gua, lanado como uma seta, perpassava nos ares.

                              o
-- No dizia! exclamou D. Romer com ar de triunfo, voltando- se para a roda.

A resposta foi uma exclamao estrepitosa, que prorrompeu dos lbios dos
companheiros:

-- Bravo!

Quando o vulto esbelto relanceava por diante dele, o Canho, com incrvel ligeireza,
salto no espinhao da gua, que l se foi a escaramuar pelo campo, gineteando
graciosamente e vibrando os ares com nitridos de prazer.

Depois de algumas voltas, quis o rapaz traz- la ao terreiro, mas encontrou resistncia,
que depressa venceu. Amaciando- lhe as finas sedas da clina com a mo direita, se
debruou ao pescoo para abra- la. O inteligente bruto, de seu lado, voltou o rosto
para ver o semblante do gacho, e talvez agradecer- lhe sua carcia.

Domada, ou antes, rendida ao amor e  gratido, a baia aproximou- se do terreiro
sacando com gentileza e elegncia, como faria o mais destro corcel em luzida
cavalhada.

-- Ganhou o animal, amigo, mas assim eu no o queria decerto.

-- Que pretende o senhor dizer com isso?

Era de Manuel a pergunta; comeada longe, acabou em face do mascate, onde veio
cair de um salto o irado gacho, que se arremessara de cima do animal, apertando na
cinta o cabo da faca.



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O chileno empalideceu de leve:

-- No se afronte, que no h razo. O que eu disse, repito. A gua abrandou de
repente, ou por estar cansada, ou por outro qualquer motivo: o caso  que no est
como dantes.

Vexou- se o Canho de seu arrebatamento, reconhecendo que no havia realmente
motivo para tanto. Mas sentia ao mesmo tempo que a presena do chileno produzia
nele uma desagradvel impresso.

As sbitas antipatias so incompreensveis;  este um mistrio d'alma, que a cincia
ainda no conseguiu perscrutar. Parece que h no magnetismo animal, como na
eletricidade da atmosfera, um fluido de repulso e um fluido de atrao; um plo para
o amor e outro para o dio.

Foi sem dvida sob a influncia deste ltimo que uma averso irresistvel se
estabeleceu logo do brasileiro para o chileno. Recente era o encontro; Manuel o tinha
visto pela primeira vez h cerca de uma hora; poucas palavras trocara com ele, e no
obstante parecia- lhe que desde muito tempo o detestava.

Entretanto a figura de D. Romero era mais prpria para despertar sentimentos
benvolos. Mancebo de vinte e cinco anos, tinha um semblante prazenteiro; o negro
                            -
bigode e a pra destacavam se bem sobre uma tez alva e rosada. Era mediana a
estatura, mas de um porte airoso, embora com excessivo donaire que afeta
geralmente a raa espanhola.

Trajava o mancebo com a garridice de cores muito apreciada pela gente da campanha.
Lindo pala chileno, com listras de amarelo e escarlate, caa- lhe dos ombros at pouco
abaixo da cintura. Pela abertura da gola de veludo com abotoadura de ouro, via- se o
peito da camisa de fina Irlanda. As botas eram de couro de vicunha, to bem curtido
que imitava a camura. Trazia um chapu de palha alvo com o linho de que parecia
tecido; esse primor lhe havia custado oito onas em Santiago.




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VII - O AMANSADOR

 admirao que provocara a faanha do gacho sucedera certo menoscabo. As
multides so assim; ondas batidas por dois ventos, o entusiasmo e a inveja.

-- A gua j foi amansada, no tem que ver! dizia um da roda.

-- Aposto que fugiu h tempos de algum pasto, acudiu outro.

-- Tambm vou para a. A fria no foi grande.

-- Decerto! Queria- se ver a fora da gineta!

-- Assim qualquer faria.

Voltou- se Manuel j de nimo sereno, designando o animal com um aceno da mo
estendida:

-- Pois a gua a est, senhores. Quem quiser que a monte. Se  to fcil!

Alguns dos pees se adiantaram para outra vez tentarem cavalgar o animal: no
deram, porm, dez passos. Mal lhes pressentiu o intento, a gua, volvendo sobre as
mos de um tranco, e upando as ancas, arremessou tal cascata de coices, que
afugentou os fanfarres, obrigados a buscarem refgio no alpendre.

Ento a formosa besta correu para junto do gacho que estava arredio, e comeou a
roar por ele o pescoo como se o afagasse. Sossegou- a ele amimando- lhe o plo
dourado; e voltando- se para os companheiros, interpelou- os com ar de mofa:

-- Ento, no h quem queira?

Nenhum respondeu: falavam entre si.

-- O homem tem partes com o diabo! Cruzes!

-- O caso  que ningum sabe donde saiu.

Entretanto Manuel tinha de novo montado, e desta vez, com toda pachorra, sem que a
gua fizesse o menor movimento de impacincia. Antes mostrava ela grande
contentame nto de obedecer ao gesto do gacho.

-- Guarde a gua, sem medo, Manuel Canho, que bem a ganhou, disse o dono da
pousada.

O brasileiro fez um gesto de assentimento; e aproximou- se do alpendre.

-- Esta  a gineta que eu uso e aprendi de meu pai. Ela faz do cavalo um amigo e no
um cangueiro. Mas tambm, senhores, se o bicho  mau, da casta que for, de dois ou



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de quatro ps, fiquem certos que no continente tambm os sabemos ensinar. Caso
haja por a algum deste lote, minha gente, botem- no para c e vero.

Cortejou com o chapu. Os da roda no sabiam que fazer; se deviam zangar- se ou
chasquear.

-- Amigo Perez, disse no entretanto o gacho; por favor tenha mo a nos arreios
enquanto volto.

-- Ento vai longe?

-- Conforme! Vou levar esta moa que est com saudades! Co itada... respondeu o
gacho amimando o colo do animal.

Passou a gua a tronqueira do pasto; foi transp- la e desfechar em uma corrida veloz,
 desfilada. Com pouco sumiu- se nos longes do horizonte. Por algum tempo ainda
ouviu- se o vibrante e generoso henito que estridava nos ares, com o clangor argentino
de um clarim.]

Simples era o segredo da proeza do gacho. Como todos os outros picadores ali
presentes na estncia, conhecera do primeiro lance de vista, que a gua estava parida
de prximo. Esta observao, a que no deram os mais nenhum valor, produziu nele
profunda impresso.

Sua alma comovida por sentimentos afetuosos ps-se em contato com o instinto do
                                                             -
animal; operou- se a transfuso; os ntimos impulsos da recm me se refletiram no
corao terno do mancebo. Compreendeu o desespero, a saudade bravia pelo filho
abandonado e a clera terrvel contra aqueles que a tinham arrebatado s douras da
amamentao.

Quando nitria a gua, fitando nele os olhos ou tomando o faro da campanha, era como
se lhe falasse.

Desde criana lidava Manuel com animais; fora esse o ofcio de seu pai; no havia em
toda a campanha do Rio Grande amansador de fama que se comparasse com o Joo
Canho. o que mais se admirava no moo gacho no era contudo a destreza, na qual
excedia de muito ao pai; porm sim a dedicao que ele tinha  raa hpica.

Havia entre o gacho e os cavalos verdadeiras relaes sociais. Alguns faziam parte de
sua famlia; outros eram seus amigos; aos mais tratava-os como camaradas ou
simples conhecidos.

Com os irmos e amigos vivia em perfeita intimidade; consentia que lhe roassem a
cabea pelo ombro, ou lambessem- lhe a face. Muitas vezes comiam em sua mo;
andavam constantemente soltos; no havia cabresto nem soga para eles; era corcis
livres.




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Tinham esses membros da famlia suas vontades, que o chefe respeitava por uma
justa reciprocidade. Se acontecia agastar-se algum, e a conscincia de Manuel o
acusava, era ele quem primeiro cedia; e assim faziam- se as pazes.

Aos camaradas no consentia o gacho aquelas familiaridades; ao contrrio, os tratava
com certa reserva. Saudavam- se pela manh ao despontar do dia; e  noite, na
ocasio de recolher. Comumente se encontravam na hora da rao: comiam juntos, os
brutos no embornal, o homem na palangana.

Na opinio de Manuel o cavalo e o homem contraam obrigao recproca; o cavalo de
servir e transportar o homem; o homem de nutrir e defender o cavalo. Se um dos dois
faltasse ao compromisso, o outro tinha o direito de romper o vnculo. O homem devia
expulsar o cavalo, o cavalo devia deixar o homem.

S em um caso o Canho castigava o ginete brioso: era quando o bruto se revoltava.
Ento havia luta franca e nobre; os dois contendores mediam as foras, e o mais hbil
ou o mais vigoroso vencia o outro. Na sua adolescncia, at aos quinze anos, fora o
gacho batido muitas vezes; mas j ia para sete anos que tal coisa no lhe sucedia.

Fora desse caso do desafio, o rebenque e as chilenas eram trastes de luxo e
galanteria. Somente usava deles em circunstncias extraordinrias, quando era
obrigado a montar em algum cavalo reino e podo, desses que s trabalham como o
escravo embrutecido  fora de castigo.

Tinha o gacho inventado uma linguagem de monosslabos e gestos, por meio da qual
se fazia entender perfeitamente dos animais. Um hup gutural pungia mais seu cavalo
do que a roseta das chilenas; no carecia das rdeas para estacar o ginete 
disparada: bastava- lhe um psiu.

Enfim o cavalo era para o gacho um prximo, no pela forma, mas pela
magnanimidade e nobreza das paixes. Entendia ele que Deus havia feito os outros
animais para vrios fins recnditos em sua alta sabedoria; mas o cavalo, esse Deus o
criara exclusivamente para companheiro e amigo do homem.

Tinha razo.

Se o homem  o rei da criao, o cavalo serve-lhe de trono. Veculo e arma ao mesmo
tempo, ele nos suprime as distncias pela rapidez, e centuplica nossas foras. Para o
gacho, especialmente para o filho errante da campanha, esse vnculo se estreita.

O peixe careca d'gua, o pssaro do ambiente, para que se movam e existam. Como
                                                                           -
eles, o gacho tem um elemento, que  o cavalo. A p est em seco, faltam lhe as
asas. Nele se realiza o mito da antigidade: o homem no passa de um busto apenas;
seu corpo consiste no bruto. Uni as duas naturezas incompletas: este ser hbrido  o
gacho, o centauro da Amrica.

Contavam muitas coisas a respeito de Manuel Canho.




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No passava ele por lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que se no
apeasse, fosse embora com pressa, para o socorrer. Sangrava- o, se era preciso;
cauterizava- lhe as feridas; e at quando j o animal se no podia erguer, ele o
arrastava para a sombra e ia buscar-lhe gua no chapu em falta de outra vasilha.

Tinha comprado alguns cavalos que os donos arrebentavam de mau trato, unicamente
para lhes dar repouso e assegurar- lhes velhice sossegada. Por causa de um destes
protegidos seus, que um vizinho derreou, teve ele uma briga feia que felizmente
acabou sem desgraa. O vizinho de uma satisfao completa, alforriando, a pedido do
gacho, um reino que tinha feito a campanha de 1812.

No via o Canho castigarem barbaramente um animal, sem tomar o partido deste. Por
isso afirmavam que era ele o gacho mais popular entre os quadrpedes habitantes
das verdes coxilhas banhadas pelo Uruguai e seus afluentes, o Ibicu e o Quaraim.

Em qualquer ponto onde estivesse, precisando de um cavalo, no carecia de o apanhar
a lao: bastava- lhe um sinal e logo aparecia o magote alegre a festej- lo, oferecendo-
se para seu servio. O trabalho era escolher e arredar os outros, pois todos queriam
prestar- se, como seus amigos que eram, uns por gratido, outros por simpatia.

Quando partia, o acompanhavam algumas quadras, curveteando a seu lado, como
demonstrao de amizade. Afinal paravam para segui- lo com a vista, at que sumia-se
por detrs das coxilhas.

Estncias havia em que anunciava- se a chegada de Manuel pelo relincho estridente,
que  o riso viril e sonoro do cavalo. Era o gacho recebido e afagado na tronqueira
pelos camaradas saudosos, que vinham apresentar-lhe o focinho, rifando com cimes
uns dos outros.

Se acontece passarmos  vista da casa de algum amigo, lhe dirigimos um olhar,
dando- lhe mesmo de longe os bons- dias. Assim, contavam que os cavalos amigos de
Manuel, quando subiam o teso que ficava fronteiro  sua casa, rinchavam de prazer,
abanando a cauda com alegria.

Tais eram os contos que referia a gente da campanha. Verdadeiros ou no, todos neles
acreditavam; e at apontavam- se pessoas que tinham sido testemunhas dos fatos.




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VIII - A BARGANHA

Por sangas e coxilhas, galgando encostas e transpondo barrancos l vai a baia campos
afora.

 um adejo essa corrida; tem a velocidade dos surtos e ao mesmo tempo a serenidade
do remgio de uma guia. No se ouve o estrupido dos cascos na terra, nem parece
que tocam o cho. Nesse deslize rpido e suave, sente o cavaleiro despontar- lhe asas
ao corpo, enquanto o pensamento, docemente embalado, colhe os vos e adormece.

Descambava o sol.

Fez alto Manuel  beira de um arroio, onde havia frescura d'gua, sombra e relva.
Perto erguia- se uma choa, perdida no meio dos pampas, como uma rvore da
floresta, cuja semente veio trazida pelo vento.

A gua estava ardendo por esticar os msculos e espojar- se na grama.

-- Sossegue, moa! disse o gacho sorrindo.

Com um molho de ervas secas esfregou- lhe o plo banhado de copioso suor; e s
depois disso, consentiu que ela se rolasse pelo capim e estancasse a grande sede, no
de um flego, mas por diversas vezes. A impacincia materna era assim moderada
pela inteligente solicitude do gacho.

Enquanto o animal retouava aparando os tufos da grama viosa, que vestia as
margens do arroio, tratou o gacho de refazer as foras.

A choa estava deserta e a porta presa apenas por uma correia. No interior, composto
de uma s quadra, havia de um lado a cama feita de estiva e forrada de pelegos; do
outro o brasido onde assava uma grande naca de charque, suspensa em um espeto.
Conhecia- se que a ausncia da pessoa que a habitava era recente, pois a carne
apenas estava tostada na parte exposta ao fogo.

Entrou Manuel sem hesitao. No deserto, uma habitao no  mais do que um
pouso. Algum o levanta; o peo de alguma estncia que por a pousou; um caador
talvez, se no um evadido da sociedade. E o rancho l fica abandonado; aquele que a
chega depois  hspede, como o outro que h de vir mais tarde.

Nessa vasta solido, onde o homem, ludbrio da natureza, no se possui a si mesmo, a
propriedade no  mais do que a ocupao.

Nunca tivera o gacho ocasio de refletir sobre essa comunidade do deserto, que
entretanto agora ele compreendia por uma intuio. Com a conscincia de seu direito,
tirou do espeto a carne j assada e comeu, tendo o cuidado de substitu- la por outro
pedao, que separou das mantas estendidas nas varas da palhoa.

Finda a colao, deitou- se para descansar um instante. Decorrido algum tempo,
ouviram -se passos e assomou no vo da porta o vulto de um homem robusto. Dos


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                      -
largos ombros pendiam lhe,  guisa de abas de ponche, dois pelegos de carneiro;
tinha a cabea descoberta, e no trazia mais roupa do que uma tanga de velha baeta
encarnada.

Vestia a parte nua do corpo, cara, braos e pernas, um plo rspido e fulvo,
semelhante ao do caititu. Na mo direita empunhava um chuo, cuja haste grossa e
faceada servia ao mesmo tempo de vara e de clava. Na esquerda suspendia pelas
quatro patas, como se fosse algum coelho, o tigre que matara poucos momentos
antes.

Correu o desconhecido os olhos pelo interior, prescrutando o que passara em sua
ausncia. Vira os passos do gacho e do animal nas margens do arroio.

-- Deus o salve, amigo! disse Manuel erguendo- se.

-- Para o servir, respondeu o desconhecido.

Era rouca e spera a voz, porm articulada. No primeiro instante pareceu estranho que
 sasse fala humana daquela boca hirsuta, como o focinho de uma fera.

-- Por que no se deita? perguntou ao gacho com rispidez.

Atirando a caa  banda, comeu o desconhecido a naca de carne, ainda crua, que
estava sobre o braseiro. Para beber gua foi ao arroio e estendeu- se de bruos pela
margem. De volta ao rancho, aproximou- se dos ps do leito onde o Canho estava
deitado; e puxando um dos pelegos que o forravam, estirou-o no cho e deitou-se.

Nesse momento meteu a gua a cabea pela porta. Dando com o gacho sentado,
fitou nele os olhos, e comeou a ornejar baixinho, como para chamar a ateno do
companheiro. Acudiu- lhe Manuel erguendo- se.

Que alegria ao v-lo aproximar- se! Que afagos trocados entre os dois amigos! A
Morena alongava o pescoo, estendia o focinho para os longes da campina; e roava a
espdua pelo gacho, vergando faceiramente o ombro, como se o convidasse a montar
e partir.

-- Ainda no, Morena; coma e descanse primeiro, dizia Manuel, amimando-lhe o colo;
h de ver o pequerrucho, mas a seu tempo!

Durante as doze horas de conhecimento que tinham, j conseguira o amansador fazer-
se compreender perfeitamente da baia. Era a gua um inteligente animal; e depressa
aprendera a linguagem pitoresca e simblica inventada pelo gacho para suas relaes
sociais com a raa eqina.

Puxando levemente a baia pela orelha, obrigou- a Manuel a pastar um trevo gordo e
apetitoso que estofava as fendas de uma lapa. A Morena quis recalcitrar, mas cedeu
submissa ao olhar imperioso do gacho.




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Por uma terna solicitude sofreava Manuel os impulsos do amor materno, poupando as
foras da gua, que na impacincia de ver o filho, e talvez salv- lo, podia matar- se.
To comum  essa sublime insensatez na criatura racional, que no pode admirar no
bruto!

Voltando  palhoa, deu o gacho com o caador que o observava da porta.

-- Quer barganhar a gua?

-- No! respondeu Manuel com rispidez.

Esta proposta o desgostou.

-- Dou- lhe em troca...

Volveu o homem o olhar  sua pessoa e o devolveu em torno, buscando um objeto que
servisse para a barganha proposta: descobriu a alguns passos, meio enterrada, uma
velha chilena de ferro, torta e desirmanada.

-- Dou- lhe em troca esta chilena!... No faa pouco. A sua de prata, ou de ouro que
fosse, no valia tanto. Saiba que pertenceu ao famoso capito Artigas, cavaleiro como
nunca houve no mundo, nem h de haver.

Sorriu- se Manuel.

-- Vale mu ito, nem digo o contrrio. Mas a gua no me pertence.

-- De quem  ento?

-- De ningum.  livre.

-- Est zombando?

-- Dou- lhe minha palavra.  livre, to livre como eu, disse o gacho com firmeza.

-- Bem: neste caso, eu a tomarei para mim.

-- Com que direito?

O caador grunhiu uma espcie de riso, que insuflou- lhe as ventas largas.

-- V aquela ona? Esta manh era mais livre do que a gua.

-- Perca a esperana, que a gua no h de ser sua.

-- Por que ento?

Fitando no caador um olhar lmpido e sereno, respondeu o gacho com pausa:


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-- Porque eu no quero.

-- E como se chama voc, homem?

-- Manuel Canho, para o que lhe aprouver.

-- Pois digo- lhe eu, Pedro Javardo, que a gua h de ser minha.

-- E eu juro, palavra de um brasileiro, que se tiver o atrevimento de pr- lhe a mo, hei
de mont- lo como um porco- do-mato que , para cort-lo com estas chilenas.

-- Est voc falando srio?

-- Experimente.

-- Veja em que se mete. Ainda no achei homem que me fizesse frente.

-- Pois achou um dia.

-- Tenho eu fora neste brao como um touro.

-- Touros costumo eu derrubar todos os dias no campo.

-- Ento no se desdiz?

-- Tenho mais que fazer do que atur- lo. Vou longe e com pressa.

Carregando o chapu na testa, passou o gacho com arrogncia por diante do
caador; atirando-lhe aos ps uma mo eda de prata, entrou no rancho, e cortou um
pedao de carne para a viagem.

Ao sair no viu mais o caador. Conhecedor, porm, da ndole prfida desses abutres
de espcie humana, habitantes do deserto, redobrou de vigilncia.

No tinha dado dois passos, quando Pedro, oculto numa ramada, se arremessou contra
ele, com um salto de tigre. Estava, porm, o gacho prevenido, e desviou- se a tempo;
sacando a faca esperou o inimigo de frente.

A esse tempo a baia aproximou-se; quando Manuel ia montar, o caador, j armado
com o chuo, investiu furioso.




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O Gacho  Livro Primeiro | Jos de Alencar

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IX - AMIGAS

Sentindo os joelhos do gacho a lhe cingirem os rins, a gua disparou, sibilando nos
ares como uma seta.

Rangeram os dentes de raiva ao Javardo; metendo a mo por baixo do ponche
desenrolou da cintura um lao, que num pice girou- lhe duas vezes em torno da
cabea, e foi arremessado longe com fora desmedida.

A Morena estancou de repente. O lao a colhera pelos peitos. Procurou Manuel na
ilharga sua faca para cortar a trana de couro, que prendia o brioso animal, porm,
no a achou; com a pressa de montar resvalara da cinta.

Entretanto o caador com os ps fincados no cho, fazia grande esforo para conter o
mpeto do animal, que ficara como suspenso na corrida veloz, com as mos erguidas e
unicamente apoiada sobre os cascos posteriores.

-- Hup, Morena! gritou Manuel debruando- se sobre o pescoo da gua.

A baia retraiu- se como o gato selvagem quando prepara o salto. No decorreu um
instante; o corpo robusto do caador, arrancado como um cedro que o pampeiro
arrebata, rolou pela encosta. Assim arrastado, bateu acaso no toco de um pinheiro e
pde tranar nele as pernas.

Bruscamente sofreada, a gua estacou de novo, mas para colher as foras e arrancar
mais impetuosa. A trana do lao estalando foi aoitar a cara de Pedro que rugiu como
um touro.

Manuel voltou ao lugar onde lhe cara a faca para a apanhar. Outra vez a corrida veloz
da Morena fendeu o imenso deserto, que se dilata pelas margens do Paran.

Levanta-se a lua.

O vulto do astro se reflete nas guas de um banhado. Entre o cu e a terra flutuam
tnues vapores que os raios da lua nova infiltram de uma luz cerlea e rociada. Sob
essa gaza suave e transparente se desdobra, como um lenol, a vasta plancie.

Duas vezes durante a noite apeou Manuel para dar flego ao brioso animal. A me
sfrega por chegar relutava sempre; alongando o pescoo para o horizonte, soltava
um relincho penetrante e ansiado.

Na sua impacincia, abandonava por momentos o gacho e avanava pelo campo fora.
Mas voltava logo arrependida e submissa.

Por que o animal selvagem e livre no corria onde o chamava o instinto com tamanha
veemncia? Tinha ele necessidade do homem, carecia do auxlio do amigo? ou uma
fora desconhecida o prendia  vontade superior que o tinha domado?

Quem o pode saber?


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Apesar de seu desejo de satisfazer o impulso da baia, Manuel usava da severidade
necessria para impedir um esforo que podia ser fatal. Ele sabia que o teor da paixo
 sempre o mesmo no homem, como no bruto.

Ao alvorecer, o deserto muda de fisionomia: perde a expresso harmoniosa e suave,
para tomar um aspecto agreste. O senho  torvo. H nas asprrimas devesas, que
irriam agora o horizonte, traos de um semblante carrancudo.

J no ondulam docemente, espreguiando pelo campo em brandos contornos, as
lindas colinas que a imaginao pitoresca dos gachos chamou coxilhas, ao recordar a
curva sedutora da moreninha. Tambm no se retraem mais com leve depresso os
vales macios que semelham o regao da donzela.

As formas da campanha se convulsam agora. So belas todavia; ainda se percebem
alguns contornos maviosos; mas pertencem a um corpo rijo e inteiriado.

Grupos de pequenos penhascos vestidos de uma vegetao ingrata e sfara anunciam
essa fase do deserto: so como as primeiras enervaes da natureza dos pampas.
Sucedem algumas rampas ridas incrustadas de grandes seixos dispersos, estilhaos
                                        -
de primitivas exploses. Afinal levantam se grandes molhos de esguios alcantis,
cobrindo a lomba dos cerros, como hspidas cerdas.

Quando atingiu Manuel as orlas crestadas da bronca regio, um bando de urubus,
vindo de remotos stios, voava na direo do cerro.

Descobriu- os a gua; soltando um gemido fremente e aflito redobrou de velocidade.
No desespero do temor que a arrastava, parecia querer lutar de rapidez com o abutre.
Aspirava o ar com sofreguido, coando no olfato as mnimas emanaes trazidas pela
brisa. De vez em quando vibrava um henito agudo e estridente, como o rugido da
leoa; imediatamente estendia as orelhas para recolher algum tnue som remoto, em
resposta ao seu ofegante apelo.

Chegou enfim.

A meio da fragosa encosta havia um largo pedestal de rocha, sobre o qual se erguiam
como grupos de colunatas, algumas touas de palmeiras.

Quase ao rs-do-cho abrira o granito uma fenda estreita; dentro via-se alguma relva
e plantas que sem dvida povoavam a caverna. Os urubus piavam, esvoaando de
rama em rama.

Foi a, que a gua arquejante esbarrou a corrida; no se podendo mais ter sobre os
ps caiu de joelhos; metendo o focinho pela fenda, arrancou do peito um cla ngor
inexprimvel. Ia de envolta nesse brado o nitrido argentino, que  o grito de jbilo do
cavalo com o rincho spero e brusco, lamento de uma dor sbita.

No cessava a me aflita de farejar o interior da caverna, e lastimar- se ornejando
submissamente. Esse primeiro instante foi s do filho, que ali estava, ainda vivo sim,
mas prestes a exalar o ltimo alento. No se lembrou de nada mais; nem dela, nem



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mesmo do amigo generoso e dedicado que a trouxera. Pouco se demorou porm essa
atonia.

Ergueu a fronte e ps no gacho olhos ternos e suplicantes, ao passo que a pata
copada e rija batia a fenda da rocha; consolou-a Manuel afagando- a com a mo e o
doce murmurejo que falava ao corao materno. Nas farpas da pedra, gretada pela
parte interior, estavam grudadas por visgo branco rstias finas e macias de um plo
alazo: da parte exterior, porm, via-se pelo resbordo, molhos de fios alvacentos.

Levantara - se a Morena e pela rampa ngreme subira ao respaldo do penhasco. Ali
estava entre os troncos das palmeiras, sob um arbusto embastido, a cama de folhas e
grama, que servira de bero ao filho. Entre o fino capim, sobre a crosta argilosa do
rochedo, descobriam olhos vaqueanos o rastro de um casco pequeno e ainda vacilante,
a julgar pela leve depresso da terra. Baralhado com este o rastro maior do puma,
seguindo um trilho de sangue na direo da selva. Em todo o circuito, desde a fenda
at  mata, o cho estava profundamente escarvado pelos cascos da gua.

Para o fundo, o terrado declinava e abrupto sumia- se por funda barranca; era a o
ventre da caverna a que a fenda servia apenas de glote. Acompanhando o movimento
do animal que em risco de precipitar-se alongava o pescoo, sondava Manuel as
profundezas da gruta.

Nesse momento ouviu-se um som dbil e flente que vinha da fenda. A me aflita
correu para ali e tornou a chamar ansiosamente o filho. Entanto os ramos se
afastavam e outra gua, de plo tordilho, se aproximou, seguida do seu poldrinho;
viera trazida pelo rincho da companheira. Eram amigas; abraaram- se cruzando o
pescoo e acariciando-se mutuamente as espduas. Depois de trocadas estas
primeiras carcias, a recm-chegada comeou uma srie de movimentos entrecortados
de rinchos que deviam ser a narrao eloqente dos sucessos anteriores. A Morena
atendia imvel.

Presenciou o gacho do alto aquele terno colquio, que veio completar a notcia colhida
na confisso da baia e na investigao do terreno. Sabia agora toda a verdade do triste
acontecimento.

Havia oito dias que tivera a Morena um lindo filho alazo. Uma tarde, quase ao
escurecer, o puma assaltara a malhada do poldrinho, que recuando intrpido para
fazer face ao inimigo, escorregara pela rocha e cara na gruta. Acudira a me;
perseguiu o animal carniceiro, e lhe fendeu o crnio com as patas. Quando fazia os
maiores esforos para tirar o filho, foi ali cativa do chileno, atrado pelos rinchos
angustiados. Na sua ausncia conseguira o poldrinho galgar at  fenda e introduzir
por ela o focinho. Foi ento que a tordilha, condoda do rfo, se roara com a lapa a
fim de pr- lhe as tetas ao alcance. Amamentou- o assim alguns dias; mas os torres
argilosos, onde pisava o animalzinho, cederam aprofundando- o pela caverna.

L devia estar, pois, inanido, a soltar o ltimo alento.




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X - MAME

Sem hesitar penetrou Manuel na gruta.

Era difcil a entrada, pela angstia da passagem, que formava a laringe da caverna; a
garganta j era estreita e sinuosa; mas ali duas cartilagens do rochedo cerravam o
canal. A saliva que segregavam as porosidades calcrias do granito, umedecia todo
esse tubo, e o forrava de um muco limoso.

Compreendia-se bem como a caverna devorara to rapidamente o poldrinho. A
imitao da jibia o envolvera da baba, para que resvalasse ao longo da garganta.
Mais uma semelhana que mostra o padro uniforme de cada regio da terra. As
monstruosidades da natureza animada tm um ar de famlia com as monstruosidades
da natureza inerte. O elefante, o maior quadrpede,  filho do Himalaia. A sucuri, a
maior serpente,  natural do Amazonas. O pssaro gigante habita os cimos da Amrica
sob o nome de condor, e os da sia sob o nome de roque.

Depois de longos e contnuos esforos, conseguiu o rapaz arrancar da gorja do rochedo
uma das guelras. Ficaram- lhe as mos ensangentadas; mas nem reparou em tal
coisa. Introduziu a cabea, logo aps os ombros e surdiu enfim no ventre da caverna.
O poldrinho arquejava a um canto. Imediatamente o suspendeu com ternura e mimo,
cingindo-o ao seio, para transmitir- lhe o calor vital. Mal gemera a cria, apareceu na
entrada a ponta do focinho da Morena.

Em risco de estrangulao a msera me se alongara pela gruta a dentro, soluando e
rindo; soluando pelo filho moribundo, e rindo pelo filho ainda vivo; duplo sentir e
avesso, que somente se explica pelo fluxo e refluxo do oceano, a que chamam
c orao.

Ergueu Manuel o poldrinho, que a gua segurando pelas clinas tirou fora da gruta e
pousou sobre a relva, deitando- se para o conchegar a si.

Em semelhante situao, a mulher me embebia a criana de lgrimas e beijos, e a
                             -
cerrava ao seio para aquec lo ao seu contato. A gua me lambeu o filho e o cobriu
todo de uma baba abundante e vigorosa. No fim de contas a carcia materna  a
mesma no corao racional, como no corao animal; uma extravaso d'alma que
imerge o filho e uma influio do filho que se embebe n'alma.

A mulher chora, solua, beija e abraa; a gua lambe, e nesse nico movimento h a
lgrima, o soluo, o sculo e o amplexo: o amplexo da lngua, que  o abrao
inteligente do animal.

Enquanto assim procurava a baia reanimar o poldrinho, estavam contemplando-a,
mudos e igualmente comovidos, o Manuel de um lado, do outro a tordilha. Esta deitava
sobre a amiga uns olhares longos; de vez em quando castigava a travessura de seu
poldrinho, arredando- o de si, quando se ele chegava para acarici- la. No queria ela, a
me feliz, dar quela me desventurada o espetculo de sua alegria.




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Aquecido pela baba ardente do seio materno, foi o coitadinho a pouco e pouco
recobrando o alento. Fazendo um esforo, pde a Morena roar as tetas rolias pela
boca ainda imvel do filho.

A interpe- se o Manuel, que espiava esse instante. Tinha a gua corrido cerca de vinte
horas sucessivas, intercaladas apenas de um breve repouso. O suor que pouco h
alagava-lhe o corpo, ainda perla sua roupagem macia. Arqueja ainda a vigorosa
petrina, e o resfolgo  ardente como o fumo de uma cratera.

Receia o gacho que esse leite agitado, no s pela fadiga, como por abalos
profundos, seja, em vez de licor vital, mortfero veneno. Tira, pois, o poldrinho do
regao materno, apesar da relutncia da Morena, que afinal cede. Fora necessria
alguma severidade; Manuel, com o fragmento do lao, peara- lhe as mos, obrigando- a
assim a repousar para melhor tratar depois do filho.

Tomando ento o poldrinho no colo, chamou a tordilha que ligeira acudiu oferecendo
as tetas para amamentar o pobrezinho desfalecido. A primeira suco foi dbil e
intermitente; depois mais forte e contnua. No consentiu porm o gacho que
mamasse muito; e recebida a suficiente nutrio, restituiu- o  me sfrega por e le.

Cara o poldrinho no delquio natural depois de longa privao de alimento; sucedeu
um sono reparador, que ele dormiu no regao e sob os olhos da me. Tambm esta,
colhendo alguns molhos de relva fresca e nutritiva, sossegou da agitao e fadiga de
to longa corrida.

Consentiu a tordilha ento que o seu pirralho brincasse, mas longe, para no acordar o
camarada; e Manuel batendo o isqueiro chamuscou um pedao de charque para o
almoo.

Era passada uma hora.

                                              os
Abriu os olhos o poldrinho, inteiriou os membr trpegos, e erguendo o curto
focinho, soltou um suave ornejo, que na linguagem da natureza exprime o eterno e
sublime balbucio da criana, e na linguagem dos homens se traduz por esta palavra-
hino:

-- Mame.

Palavra inata, que o esprito traz do cu, como traz a conscincia de sua origem.
Quando Deus encarna as almas, para semear a terra, imprime - lhes dois emblemas
indelveis: a conscincia da divindade e a intuio da maternidade; o verbo divino e o
verbo humano.

Quem pode afirmar que o animal seja ateu? Os mugidos merencrios do gado ao pr
do sol, os descantes das aves na alvorada, os uivos lastimosos do co durante as
noites de luar, o balido das ovelhas alta noite, sabe algum acaso se esta  ou no a
prece do filho da natureza?




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O sentimento da matern idade, esse  de uma evidncia muitas vezes humilhante para
a raa humana. Em todo o corpo onde h uma rstia de vida, reside uma voz para
balbuciar o verbo humano. Desde o rugido do leozinho at o imperceptvel estalido da
larva, todo o ente gerado diz -- me.

Tambm seio, dotado de faculdade conceptiva, nenhum h que no palpite ntima e
profundamente ao eco daqueles sons. Parece que ele conserva a sensibilidade interna
do contato com o filho que gerou; a dor, como a alegria, se comunica e transmite de
um a outro por misteriosa repercusso.




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XI - ADEUS

Cabriola a Morena em volta do filho, agora de todo reanimado. No parece j aquela
ardente natureza, cheia de paixo; tornou- se menina; ei- la agora travessa rapariga, a
saltar sobre a relva em dias de folg ares. Como alegre caracola, e atira as upas
lascivas, soltando relinchos de prazer. As dengosas moreninhas das margens do
Jaguaro, no se requebram com mais gracioso donaire, ao som da viola.

No  s amor, paixo e culto, a maternidade; mas tambm e principalmente uma
reproduo da existncia. Renasce a me no filho, volve  puercia para
simultaneamente com ele, a par e passo, de novo percorrer a mocidade e a existncia.
Deus lhe deu essa faculdade de se desviver, para que transviva na prole; sem isso,
c omo seria possvel  dbil criatura romper os limbos da infncia?

H duas concepes.

A primeira, material, que produz o feto:  a mais breve e a menos dolorosa. Este parto
reduz- se  dilacerao do seio quando o rasgam as razes da nova existncia que
desponta. Dores cruas, mas inefveis; lgrimas congeladas, mas que se diluem em
jbilos santos!

Desde que nasce o filho, logo a me de novo o concebe, mas dentro d'alma; h a um
seio criador, como o tero; chama - se corao.

Dura esta gestao moral, no meses, porm anos; os estremecimentos ntimos e os
repentinos sobressaltos se transmitem; h um cordo, invisvel, que prende o corao-
me ao corao- filho, e os pe em comunicao. A vida  uma s, repartida em dois
seres.

Admirvel solicitude da natureza! O grelo, que borbulha, rompe a terra protegido pelas
rijas cpsulas da semente. O ovo  o primeiro bero da cria, cujo germe tem em si. Na
entranha, da serpe tambm est o regao e o ninho, que recolhe a prole dbil.
Nenhum animal, porm, realiza a segunda gestao, a que chamam infncia, como
seja a sarig; o filho nasce duas vezes; a primeira vez para a me; a segunda vez
para si.

Semelhante  membrana que forra o seio do animal,  a solicitude do corao da
mulher e a ternura que envolve a criana, forma ndo um bero para a alma do filho.
Por isso no h dor que se compares ao parto do corao materno, a essa dilacerao
d'alma quando separa de si o filho j criado, que nasce enfim para os trabalhos da
vida.

Cada filho , pois, uma nova mocidade para a mulher. A me s envelhece, como a
rvore, quando lhe estanca no seio a seiva, que devia despontar em renovos e vios.
Que importam as rugas do crtice e as carcomas do tronco?

A flor  a eterna juventude; e o filho  flor.




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Que lindo poldrinho o da Morena! Uma pelcia de cor alaz, macia como a felpa de um
cetim, vestia-lhe o corpo airoso e gentil. Tinha ainda certa desproporo das formas,
que em sendo belas, como as dele, aumentam a graa da meninice.

Afastara-se Manuel para descansar o corpo sobre a grama. Enquanto festejava a baia
seu poldrinho, sem nunca se fartar de o ver e possuir, dormiu o gacho um sono
breve, mas profundo e reparador. Era tarde cada quando despertou.

Voltava a tordilha, guiando as selvagens coudelarias, que vinham felicitar a exilada
pela sua boa volta aos cerros nativos. Os relinchos de prazer, as alegres cabriolas, no
tinham que invejar ao mais terno agasalho da famlia que rev a irm perdida. Se
diferena houve foi a favor dos agrestes filhos dos pampas. Nenhum se lembrou que
era mais uma fome para a comunho. O cavalo  sbrio e generoso.

Erguendo- se o gacho, dispararam os magoes, e sumiram- se por detrs de um cerro.
A baia, porm, foi ter com as irms e conseguiu que tornassem. Outra vez apareceu o
bando, mas parou em distncia ao sinal do chefe, soberbo alazo, cuja estampa
magnfica desenhava- se em miniatura no lindo poldrinho recm- nascido. O altivo
sulto do selvagem harm avanou cheio de confiana.

Tinha a Morena contado o que por ela fizera seu benfeitor?

                                     -
O pai do magote e o gacho saudaram se como dois reis do deserto. No houve entre
eles afagos, nem familiaridades; mas uma demonstrao grave de mtuo respeito e
confiana.

Quanto, porm, s companheiras da baia, essas apenas viram o alazo aproximar- se
                  -
do gacho, fizeram lhe uma festa como no se imagina. Manuel recebeu- as a todas
com a efuso e prazer que sentia por essa raa predileta. A umas alisava o colo, a
outras penteava as clinas, ou amimava- lhes a garupa. E todas se espreguiavam de
prazer e trocavam sinais de grande afeio, como se fossem amigos de muito tempo.

Nunca Manuel sentira tamanho prazer. Achar- se no meio daqueles filhos livres do
deserto: admirar de uma vez to grande nmero de lindos e altivos corcis; deleitar-se
na contemplao das estampas mais elegantes e garbosas; admirar a casta em sua
pureza, e nos mais belos tipos, enobrecidos pela independncia e liberdade; h gozo
que se compare a este para um peo?

O avaro, nadando em ouro, no teria as inefveis emoes de Manuel naquele
momento, ao meio dos magotes que o festejavam, escaramuando em torno. Tambm
ele era filho do deserto, e desejaria fazer parte daquela famlia livre, se outros
cuidados no o chamassem alm.

Cuidou enfim o gacho da partida. Cumprira o dever de... Ia dizer de humanidade e
talvez no errasse; to inteligente e elevado era o sentir dessa alma pelo brioso
animal, que ele prezava como o companheiro e amigo do homem! Para ele, que
devassava e entendia os arcanos da organizao generosa, o cavalo se elevava ao
nvel da criatura racional. Tinha mais inteligncia que muitas esttuas ermas de
esprito; tinha mais corao que tantos bpedes implumes e acardacos.



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No direi contudo dever de humanidade, mas de fraternidade, o era decerto; posso
afirm - lo. Manuel considerava- se verdadeiro irmo do bruto generoso, bravo, cheio de
brio e abnegao, que lhe dedicava sua existncia e partilhava com ele trabalhos e
perigos.

Teria a si em conta de um egosta e cobarde se no seguisse os impulsos de seu
corao restituindo um ao outro aquela me rf ao filho desamparado. Agora que
estava, uma tranqila e contente, o outro salvo e reanimado, e completa pela mtua
adeso aquela dupla existncia, podia- se ir sossegado; e o devia quanto antes, que um
dever imperioso o reclamava em outro lugar.

Esse dever, sim, era humano; era a vingana do filho contra o assassino que lhe
roubara o pai.

Segurou Manuel com o fragmento do lao do caador uma gua rosilha, que j no
tinha poldrinho a amamentar. Nenhuma resistncia fez o animal; todos se haviam
rendido  influncia misteriosa do gacho; e todos desejavam tanto mostrar- lhe seu
afeto, que houve quase querelas e arrufos de cimes pela preferncia dada  rosilha.

Quem mais se agitou com esta escolha foi a Morena. Embebida at ento com
poldrinho, toda ela era pouca para a satisfao e alegria daquela restituio.
Multiplicava- se; havia tantas mes nela quantos sentidos; uma nos olhos, que
embebiam o filho; uma nos ouvidos, que o escutavam; uma na lngua, que o lambia;
uma nas vidas narinas que o farejavam; uma no tato com que o conchegava.

Mas onde estava ela sobretudo era naquele sexto sentido, exclusivamente materno,
que reside nas tetas lcteas, o sentido da suco, pelo qual a me sente que se
derrama no corpo do filho, e se transporta gota a gota para aquele outro eu.

Percebendo o movimento do gacho, foi a gua arrancada ao jubilo materno pela
lembrana do que devia ao benfeitor. Correu para ele; e afastando meio agastada a
rosilha, cingiu com o pescoo a espdua do amigo.

Manuel abraou- a entre sorriso e mgoa.

-- Pensavas tu, Morena, que me iria sem abraar- te?... Adeus!... Levo de ti muitas
saudades. A corrida que demos juntos, nunca, nunca hei de esquec- la!... Duvido que
j algum sentisse prazer igual a esse. Falam outros das delcias de abraar uma
bonita rapariga; se eles te apertassem como eu a cintura esbelta, voando por estes
ares!... Adeus! Lembranas ao alazozinho.

Arrebatando-se  emoo da despedida, pulou o Manuel no costado da rosilha, e
apartou-se daquele stio. No momento em que virava o rosto, que tinha voltado para
ver a baia, esfregou as costas da mo pela face esquerda.

Seria uma lgrima que brotava ali?

Ficou- se imvel a gua, com a grande pupila negra fita no cavaleiro que afastava- se
rapidamente. Seu peito arfava com ornejo profundo, que parecia um soluo humano.



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XII - VOLTA

Ao cabo de algumas quadras, ouviu Manuel estrupir longe, pela campina aqum, outra
corrida, mais veloz que a sua.

Pensou que fosse a repercusso do galope de seu cavalo, mas conheceu que se
enganava. Voltando o rosto viu a Morena, que breve se perfilou com a rosilha.

Algum tempo seguiu assim unida, como em parelha. Sensvel quela demonstrao de
carinho, o gacho se derreou para recostar sobre as espduas da amiga.

Mas o poldrinho chamou a me, que estremeceu; mordendo irada a rosilha, correu 
disparada para o filho, e logo tornou ainda mais rpida ao cavaleiro, a quem breve
alcanou. Ganhando a dianteira  rosilha, f- la esbarrar um instante. De novo a
reclama a voz do sangue; mas no lhe cede de todo a gratido.

Ainda trpego e dbil, o poldrinho mal ensaiava os passos sobre a encosta. A Morena
ora o instigava  corrida, ora se arremessava em seguimento do cavaleiro, soltando o
hnito plangente da saudade; j volve, j avana, quando no hesita, partida entre
dois impulsos e cativa de duas vontades em um s corpo.

Compreendeu ento o gacho os extremos da gratido do animal. A me no queria
mais separar-se do amigo que lhe salvara o filho. Para bem certificar- se, o gacho
perscrutou o desejo da baia na grande pupila negra e lmpida, que ela fitava em seu
rosto.

Esses dois seres trocaram longo e profundo olhar; nesse contato de duas almas
soldou- se o vnculo de uma amizade que devia durar at  morte.

Sem apear- se, suspendeu Manuel o poldrinho que travessou na cernelha, amparando- o
com o brao, como uma criana. Conheceu- se a alegria da Morena pelo riso
harmonioso e vibrante, e pelas gambetas que deu a travessa.

Partiram todos, desta vez, sem estorvo. Passadas as primeiras horas, a Morena, que
em princpio se mostrara prazenteira e contente, comeou a dar sinais de impacincia;
de vez em quando mordia o pescoo da rosilha; se esta se desviava do rumo em que
iam ambas desfiladas, obrigando assim o gacho a afastar- se dela, imediatamente
arrojava-se contra, repelindo a companheira, como se quisesse disputar- lhe o
cavaleiro.

Bem a entendia Manuel: eram cimes. O amor que toma o homem  cavalgadura,
sabia o gacho que  retribudo sinceramente. O ginete tem orgulho do cavaleiro que o
sabe montar; como tem o soldado de seu general.

No consente, porm, o amansador que se fatigasse a Morena, por causa do filho que
tinha de amamentar, e por isso recusa o lombo que lhe ela oferecia. Debalde a faceira
para o tentar alonga- se como uma flecha, e excede na corrida  rosilha. Debalde
colhendo os flancos, se lana aos arremessos, como a cora, prometendo naqueles
surtos as delcias da equitao; Manuel resiste a tudo, por amor do alazozinho.



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O Gacho  Livro Primeiro | Jos de Alencar

                                                                          Pg. 48 de 56


Dormiu o gacho numa restinga de mato.

Por madrugada ouviu Manuel longe uns ornejos de zanga, e no vendo a Morena,
seguiu- lhe a pista. Acabava ela de despedir a rosilha, e vinha aos saltos, contente e
folgando, oferecer o costado ao cavaleiro. Seria ingratido recusar; depois de
amamentado o alazozinho, partiu aquela famlia selvagem, que se tinha formado no
deserto, em face da natureza.

Ao pino do sol, encostou- se Manuel com uma tropilha,  frente da qual reconheceu D.
Romero.

-- Bons-dias, amigo, j vem de volta? Ento foi buscar o poldrinho tambm? Dessa
no me tinha eu lembrado.

-- Viva, senhor, respondera o gacho secamente.

-- Quer o amigo por ela com poldrinho duzentos pataces? Tenho que fazer um mimo
a certa mooila...  pegar da palavra, enquanto no me arrependo.

Nada mais natural do que oferecer preo por um cavalo, objeto de comrcio. Alguns
donos at se desvanecem com as boas propostas que lhes fazem. Cada preo alto 
um braso de fidalguia para o animal.

Irritou- se entretanto o Manuel com o oferecimento do chileno. Pareceu- lhe aquilo uma
afronta igual  de pr a preo uma pessoa de sua famlia, uma irm.

-- Se lhe pesam seus patacos, pinche- os, que no faltar quem os apanhe, respondeu
com tom rspido.

-- Por pouco se escandaliza o amigo! disse o chileno sempre calmo e polido.

-- At ver, senhor.

Por volta da noite, chegou o gacho  pousada, de onde sara havia quatro dias. O
Perez j no o esperava mais, cuidando l consigo que o homem levara a breca,
arrebentado com a gua a sobre algum barranco.

Depois de bem agasalhada a Morena e o poldrinho, trouxeram um bom assado de
couro com escaldado, que o Manuel comeu, escanchado na ponta do banco que lhe
servia de mesa.

A contou Canho ao Perez os incidentes de sua jornada pelo deserto, tais como eu
fielmente os reproduzi. O que porventura parecer estranho, corre por conta do gacho,
em cuja existncia, alis, havia muitas coisas, que no se compreendiam.

-- Caramba! exclamou Perez. Por uma noiva, e pelo pequerrucho que lhe ela desse,
voc no fazia mais do que pela gua e seu poldrinho.




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O Gacho  Livro Primeiro | Jos de Alencar

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O Canho ficou no semblante do entrerriano os olhos surpresos. Estranho sorriso
perpassou- lhe nos lbios.

-- Por uma mulher, nada!

-- Ai, que voc est mordido, Canho! Alguma lhe fizeram. Essas raparigas so assim
mesmo: gostam de moer a gente, como pimenta em almofariz.

-- A mim, no, que no lhes dou este gostinho.

-- Ora!

-- Acredite, se quiser; mas digo-lhe que nunca at hoje me bateu o corao por
mulher; e desejo morrer assim. No pode haver maior desgraa para um homem!

-- Tambm isso  demais.

-- Eu as conheo. Gostam de todos, mas no podem viver para um s: se morre
aquele a quem pertenciam, j no se lembram dele; e comeam a querer bem a outro.
Mas  s pelo gosto de terem um companheiro; no que elas sejam capazes de
sacrificar- lhe tudo.

-- Muitas so assim, no h dvida.

-- Todas, Perez. Onde acha voc uma rapariga capaz de fazer o mesmo que a baia?
Porque eu salvei- lhe o filho, tornou- se cativa; e para me acompanhar e me servir
deixou sua terra, suas amigas e sua liberdade.

-- L nesse ponto, tambm ns homens no nos podemos gabar.

-- Nem eu digo o contrrio. Todos os amigos juntos no valem o Morzelo que foi de
meu pai; mas os homens, ao menos, no enganam tanto!

O Perez deu boa- noite ao Canho; e foram ambos se acomodar. O gacho, porm, no
pde pregar olho, durante muitas horas; o vo sussurrante de um morcego, que
adejava no ptio, o sobressaltou.

Ergueu- se por vezes; foi ao pasto ver se a gua dormia, e se o poldrinho desprotegido
era vtima do vampiro. Fazia um frio intenso; acendeu um pequeno fogo de ossos,
porque no havia no campo outra lenha; mas s descansou quando pde com a haste
da lana abater o morcego.




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O Gacho  Livro Primeiro | Jos de Alencar

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XIII - A MALIGNA

No dia seguinte o gacho estava de p ao primeiro vislumbre da madrugada. Encilhou
o Ruo e despedindo- se de Perez, se ps a caminho.

Trs horas andadas, avistou uma casa sobre a esplanada da coxilha. Seu corao
bateu com alvoroto. Ali morava o assassino de seu pai. Chegara enfim o dia, o
momento da vingana esperada pacientemente.

Quando o Canho, parada um instante, olhava a casa, passaram por ele duas pessoas a
cavalo; um frade e um peo de cor preta.

-- Parece que o homem no escapa mesmo, padre.

-- Com o favor de Deus tudo  possvel, filho; mas ele est muito mal.

-- Uma coisa to de repente. No h uma semana que fizemos juntos o rodeio.

Canho sentiu-se inquieto. Pelo caminho que seguiam, os dois cavaleiros decerto
vinham da casa. Seria o dono a pessoa, de cuja enfermidade eles falavam?

Desceu o gacho o lanante da colina e aproximou-se vagarosamente da casa,
espreitando- lhe a aparncia, com receio de confirmar suas apreenses. No terreiro que
havia em frente, brincava uma criana de 8 anos, cavando um buraco na terra com a
cana partida de um velho freio.

-- Menino, o Barreda est em casa?

-- Meu pai?... Est sim.

-- Eu queria falar-lhe.

-- Mas ele est doente!

-- Ah! est doente! De qu?

-- De doena!... A gente tem chorado muito porque ele no escapa. Agora mesmo saiu
o frade que veio para a confisso.

Manuel pensativo no escutava a tagarelice do menino.

-- Diga- me; quando a gente morre, enterra- se numa cova assim, no ? tornou o
menino apontando para o buraco aberto no cho. Mas este ainda est pequeno para o
pai;  preciso cavar mais. Depois bota- se uma cruz, no ?

-- Pode-se ver seu pai?

-- Entre!



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                                                                         Pg. 51 de 56


                                                           -
A sala estava deserta; mas em um aposento contguo, ouviam se gemidos, prantos
sufocados, e vozes abafadas. Era o quarto do enfermo. Chegando- se  porta, o gacho
pde ver o Barreda prostrado na cama e sucumbido a uma febre violentssima.

Ningum fez reparo no recm- chegado. No campo, onde a morada do pobre, como do
rico, est aberta sempre ao viajante, o hspede no  um estranho. Alm de que
nesses momentos solenes a casa como que se transforma em templo, onde todos
entram levados pela curiosidade do terrvel mistrio que a alma tenta perscrutar.

Outra razo especial ainda havia para demover de Manuel a ateno das pessoas
reunidas no aposento do moribundo. Todos os olhos estavam fitos em uma velha
curandeira que nesse momento examinava o Barreda. Depois de lhe ter virado as
capelas dos olhos, torcido as asas do nariz, e beliscado as bochechas, a mulher estava
agora ocupada em examinar os braos e o peito do enfermo.

Achou ela alguma coisa, porque segurando as cangalhas de chumbo no nariz adunco, e
aproximando a candeia com a mo esquerda, esteve a examinar pausadamente o
lugar, que esfregou com um pouco de aguardente.

Acabado o exame, deitou a candeia no gravato, e levantou- se espalmando as mos
nas cadeiras derreadas com o cansao de estar tanto tempo curvada. Os olhares dois
circunstantes fisgaram -se no semblante da velha como se quisessem arrancar- lhe dos
lbios  fora o segredo da cincia. Ela o compreendeu. Acenando com a cabea de um
e outro lado, para aproximar em crculo as pessoas presentes, resmungou  meia voz:

-- No tem que ver! Eu disse logo que me chegou o recado; no passa de bexigas. L
est a primeira borbulha; mas no chega a sair, concluiu ela abanando a cabea.

A palavra bexiga produziu soobro nas pessoas presentes. A mulher redobrou de
                                                   -
pranto; quanto aos mais, parentes e curiosos, foram se esgueirando pela porta do
quarto a pretexto de estar muito quente; e com pouco desapareceram, tremendo 
suspeita de l o contgio da terrvel enfermidade.

Foi-se tambm a curandeira, porque no houve quem lhe oferecesse boa paga para
ficar. A mulher do Barreda, essa no tinha acordo para cuidar de semelhante coisa.

A todo este movimento assistiu Manuel encostado ao umbral da porta, atnito e
perplexo.

Viera com um fim, e achava- se ali como suspenso, ante aquele espetculo, que o
impressionara profundamente. No era a primeira vez que testemunhava o ato
supremo do passamento de um homem. Vira pees esmagados embaixo de um cavalo
rodado; outros estripados pelas pontas do touro bravo; o prprio pai cara a seus olhos
com o corao traspassado; mas essa agonia lenta e solene, nunca a tinha
contemplado.

De repente o enfermo estortegou na cama; com a voz trpega, cortada pelo soluo,
murmurou:




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-- gua!

No aposento ningum mais estava; Manuel circulou com os olhos os cantos e
percebendo um cntaro de barro, encheu a caneca, e matou a sede ao moribundo.
Para isso foi preciso passar-lhe o brao pelas costas e erguer o busto.




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XIV - O ENFERMEIRO

Repetidas vezes Barreda, devorado pela febre, pediu gua. A mulher aproximava- se de
momento a momento, receando ser chegado o transe supremo; depois ia de novo
atirar- se a um canto, onde ficava como desfalecida.

Vendo Manuel o desamparo em que estava o enfermo, pelo desespero da mulher e
medo que inspirava a outros o contgio da molstia, no teve nimo de retirar- se
naquele instante. Custava, porm,  sua natureza enrgica assistir impassvel ao
sofrimento de uma criatura, sem tentar um esforo qualquer para salv- la.

Veio- lhe de repente  lembrana um caso que ouvira a seu pai. Saiu fora, montou a
cavalo, e pouco depois voltou com um novilho, que laara e prendeu ao lado da casa,
na estaca do curral ou mangueira.

O enfermo passara do torpor  excessiva inquietao.

-- Tire a roupa de seu marido, que eu j volto. Vou buscar um remdio que h de
fazer- lhe bem.

Abatido o novilho com uma pancada na nuca, em um instante Manuel esfolou- o ainda
meio vivo; e correndo  casa, envolveu o corpo do enfermo na pele tpida e
sangrenta.

Feito o qu, esperou pelo resultado, assando na brasa um pedao da carne do novilho
para matar a fome.

Seu pai muitas vezes lhe contara que na campanha da Cisplatina, o capito de uma
companhia cara doente com uma febre de cavalo. O cirurgio do regimento
empregara em vo todos os meios para faz- lo suar. Pela manh quando se carneava
uma rs, dissera ele a rir, vendo arregaar o couro: "Que bom lenol! Se me tivesse
lembrado, embrulharia em um desses o capito. No h febre que resista a
semelhante custico".

O que o cirurgio no pudera fazer, acabava o gacho de pr em prtica.

Ou fosse pela energia do remdio, ou pelo vigor da organizao, operou- se na
enfermidade uma crise salutar, manifestando- se durante a noite reao franca,
anunciada por abundantes suores; de madrugada remitiu a febre, e Barreda caiu num
sono profundo.

Manuel passou a noite, como o dia, fazendo o ofcio de enferme iro. Apenas deixava o
aposento do doente para ir ver seus amigos, a baia e os outros animais a quem havia
acomodado no potreiro, tendo o cuidado de fazer com um molho de trevo seco uma
cama bem macia para o poldrinho.

Durante dois dias o gacho velou sobre o doente, como faria por um amigo. A mulher
j reanimada cobrara sua atividade; mas espavoria- se com a idia de ficar s, e pediu
ao Canho que no se fosse antes de ceder de todo a molstia.



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Ao terceiro dia j Barreda, apesar de muito fraco, dava acordo de si e atendia ao que
se passava em torno. A primeira coisa em que reparou foi naquele sujeito, cujas
feies no podia distinguir, pela obscuridade do aposento e debilidade de sua vista.
Alm disso o desconhecido calcara o chapu desabado e erguera a gola do ponche.

-- Quem ? perguntou o enfermo com voz extenuada.

Canho estremeceu.

-- O senhor no me conhece. Vinha para tratar um negcio, mas encontrei-o de cama.
Ficar para outra vez.

--  verdade. Estou aqui de molho, que no sei se arribarei desta.

-- O pior j passou, agora  ter pacincia

-- Que remdio! Olhe, que foi uma boa pea que me pregou esta macacoa! Precisava ir
 casa do Perez receber um dinheiro que me deve um chileno; se no,  capaz de
abalar sem pagar- me.

-- J ele o fez! Encontrei- o ontem caminho de Corrientes.

-- Diabo! Faz- me falta esse dinheiro, disse Barreda agitando-se na cama.

-- No se agonie; vou busc- lo.

-- Como?

-- Alcanarei o homem. D- me o sinal.

O doente chamou a mulher, que tirou da mala um vale assinado por D. Romero e o
entregou a Manuel. Este partiu, no encalo do mascate.

Quatro dias depois estava de volta com o dinheiro. O doente dormia; Manuel no quis
v- lo; falou  mulher. Pela primeira vez, depois de tantos dias, Manuel olhou de frente
para essa criatura, que fora a causa involuntria da morte de seu pai. Ainda mostrava
quanto devia ser bonita h dez anos passados.

O gacho desviou a vista com repugnncia; e entregando as moedas que recebera do
chileno, tratou de pr- se novamente a caminho. Esse lugar, que j no era o da
c aridade e no podia ainda ser o da vingana, causava- lhe horror.

Quando se dirigia ao potreiro para montar, encontrou o menino com que falara no
primeiro dia.

-- Ento vai embora?

-- Vou; mas voltarei logo.  pena que voc no tenha mais dez anos.



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O menino estremeceu com o olhar que lhe deitou o gacho.

Em caminho, pela primeira vez, refletiu Manuel sobre os ltimos acontecimentos, em
que se achara envolvido, sem o esperar. At ento no se dera ao trabalho de pensar
a este respeito; mas agora, na monotonia de uma jornada perdida, seu esprito era
arrastado malgrado pelas recordaes to vivas ainda.

Era possvel que ele, filho de Joo Canho, houvesse um momento sustido nos braos o
assassino de seu pai; e no para mat- lo, mas para servi- lo?

Acreditaria algum que ele, trazido quele lugar pelo desejo da vingana, se tivesse
desvelado durante alguns dias pela salvao do causador de sua desgraa?

Sua prpria razo no concebia como isso acontecera. s vezes vinham assomos de
dvida, que se desvaneciam logo ante a realidade to recente. Manuel tinha a
conscincia de sua natureza rspida e concentrada; a indiferena e frieza que mostrava
em seu trato, no provinham de um hbito somente; eram a repercusso interior da
pouca estima em que o gacho tinha geralmente a raa humana.

Entretanto, nos ltimos dias ele fora to outro, do que era realmente! Desvelos e
solicitude que nunca tivera por pessoas de sua famlia, como os sentira por um
estranho, pelo homem que maior mal lhe fizera neste mundo?

O esprito de Manuel agitou-se algum tempo nesse caos de seu corao; at que afinal,
desprendeu- se uma centelha e os lbios murmuraram:

-- Eu tenho de mat- lo!

A estava a razo. Aquele homem era sagrado para ele como a vtima j votada ao
sacrifcio. Aquela vida lhe pertencia; fazia parte de sua alma; pois era o objeto de uma
vingana tanto tempo afagada.

A idia de que ele havia de matar o Barreda, tornava Manuel compassivo no para o
assassino de seu pai, mas para o enfermo que se revolvia no leito de dores.




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                                              Pg. 56 de 56




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